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Geografia
Ficha 1
No final da Segunda Guerra Mundial, Oppenheimer percebeu que 90% dos sábios que a humanidade produziu estavam vivendo em sua época, e que metade dessa quantia vivia nos EUA. A partir dessa análise é possível perceber que qualquer ciência que exista está relacionada com a política. As ciências humanas, articuladas com a ideologia e a política, fazem parte do processo de produção do conhecimento. Enquanto isso, as naturais precisam estar isoladas da sociedade, para depois serem aplicadas no cotidiano das pessoas.
Ciências Humanas e Naturais
As ciências naturais, na etapa da pesquisa, diferem muito das humanas. A primeira procura reproduzir certas condições em laboratório e com ratos, para depois, com base nos resultados obtidos aplicarem os conhecimentos na sociedade. Alguns fenômenos biológicos não permitem a aplicação completa dos resultados obtidos na sociedade, pois não é ,de certa, forma um fato que se repete dentro do laboratório e fora dele em todos os casos, e acaba se tornando uma probabilidade. Apenas quando os cientistas analisam todas probabilidades possíveis do tal fato é possível aplicar os resultados na sociedade.
Enquanto isso, a segunda ciência, não pode ser pesquisada em laboratório, tanto que muitas pesquisas de probabilidade acabam errando o resultado. Como por exemplo o erro que ocorreu nas disputas eleitorais entre Fernando Henrique Cardoso e Jânio Quadros. Além disso, na maioria das vezes não é possível prever leis de causa e conseqüência, já que a sociedade não é fixa, ou imutável. Outra grande diferença é que, enquanto nas ciências naturais a crença do cientista é completamente neutra (ou pelo menos deveria ser), nas ciências humanas a crença do cientista é vital, pois ele faz parte da ideologia envolvida em seu objeto de estudo, a sociedade.
Apesar de que os cientistas naturais estejam completamente alienados da sociedade enquanto realizam suas pesquisas, é relevante mostrar que muitas vezes seus estudos podem ser transformados em base de dados para pesquisas humanas e ideológicas, como ocorreu com a Teoria da Evolução das Espécies de Darwin, que pela ideologia, acabou se transformando em Darwinismo Social.
Verdade e Ideologia
O conceito de ideologia é bem amplo e varia muito entre os filósofos. Podemos considerar que ideologia é um sistema de conceitos baseados em ciências humanas e naturais interligados e aceito por uma parte da população da sociedade em determinada época.
Na constituição de uma ideologia, as ciências humanas são as principais negadoras ou “difundidora” de conceitos e interpretadoras de muitos conceitos criados pelas ciências naturais. Surge então uma questão: Por que acreditar em ideologias se estão diretamente relacionadas com interesses e visões de certa parcela da sociedade?
Assim como todo conhecimento que se produziu na história da humanidade, as ideologias não podem ser consideradas verdades absolutas. Mesmo as ciências naturais não podem, pois as verdades são mutáveis. Um exemplo é de quando Einstein descobriu que as leis de Newton não podiam ser aplicadas no Universo.
Por isso, uma ideologia só é considerada verdade quando a capacidade de entender o mundo dessa ideologia é vitoriosa sobre outra, logo depende fortemente da história para comprovar a verdade. Mas enquanto o tempo histórico não anda, como provar que uma ideologia é mais correta que a outra?
Teorias em ciências humanas devem ser baseadas em um conjunto de conceitos coerente, chamado de metodologia, e devem ser comparadas e até testadas em certa parcela da sociedade. E assim fica possível separar claramente ideologias, como a superioridade da raça ariana, de outras mais corretas. Contudo essa metodologia não exclui a possibilidade de coexistir duas teorias conflitantes.
Ideologia e Hegemonia
Como sabemos, as ideologias tem forte influência na sociedade e podem ser utilizadas para fortalecer ou acabar com a ordem vigente. Quando uma ideologia está desgastada pelo tempo, ou seja, já não é aplicável na sociedade da época, novas ideologias surgem. Os que estão no poder as utilizam para se fortalecer, enquanto os que querem subir na hierarquia social as utilizam para acabar com a ordem vigente.
O uso de ideologia varia de acordo com o sistema político de um país: em uma democracia, onde a força não pode existir, a ideologia tem um papel fundamental; na ditadura ela aparece junto com a força, porém em menor escala.
Ficha 5
A Geografia sempre foi utilizada para explicar fenômenos naturais e sempre trabalhou com a localização das coisas. Porém, para explicar fenômenos sociais atuais, a Geografia precisa sair do plano do descritivo, para entrar no explicativo.
O Espaço Geográfico
Antigamente se definia o espaço como absoluto, onde todas as coisas estão presentes atuando sobre ele. O espaço geográfico era tido como o palco de todas ações humanas, sendo que sua influência não afetava as ações humanas. Hoje em dia excluímos a idéia de espaço absoluto para a entrada do espaço relativo. O conceito de espaço geográfico atual é todas as coisas e suas relações. A cidade que antes estava no espaço, agora é o espaço. Com base nisso podemos afirmar que o homem constrói o próprio espaço geográfico, um espaço social, elemento da sociedade.
O Espaço Geográfico como Componente da Sociedade
As relações sociais dependem basicamente da distribuição do espaço geográfico e ao mesmo tempo afetam o espaço. Por isso a distância geográfica é um dos determinantes das relações sociais. Esta distância não só é a tradicional (possível de ser medida, metros, quilômetros), mas também a distância dos meios de comunicação. Um bom exemplo é de um homem de negócios que vive em um condomínio fechado próximo a uma favela. Apesar de haver essa proximidade da favela, o homem não tem relações sociais com as pessoas que lá vivem, mas tem relações com outros homens de negócios em outros países, graças aos meios de comunicação.
Para a nação, diminuir as distâncias dos meios de comunicação, pode ajudar a resolver as distâncias naturais. Melhorar os meios de comunicação aumenta as relações sociais das pessoas, o que pode melhorar os problemas econômicos sociais. Logo podemos perceber que a distância afeta diretamente o espaço.
Outro fator importante no espaço é o objeto geográfico. Este é qualquer coisa desde que o homem a tenha atribuído uma função. Uma estrada é um objeto geográfico, pois foi construído com a finalidade de ser uma via de transportes. Uma montanha, ou qualquer paisagem também pode ser um objeto geográfico, apesar de não ter sido construído pelo homem, ele pode dar uma finalidade, um valor a montanha ou a paisagem. Estes objetos têm grande importância no espaço geográfico, pois eles influenciam claramente nos interesses das pessoas, nas nações, logo nas relações entre elas. Para visualizar melhor essa influência é só pensar no exemplo do petróleo como objeto geográfico. As relações entre os países mudam muito quando descobrem petróleo em algum território.
Globalização e o papel do Estado no mundo moderno
Muitas vezes, quando pensamos em globalização, pensamos em relações internacionais pelo planeta inteiro, a multiplicação do mercado consumidor, dos meios de produção, ou seja do capitalismo. De certa forma, isso já vinha ocorrendo antes, desde as grandes navegações, portanto se a globalização for só isso, ela não é algo novo. Sua novidade é o modo que ela vem afetando o poder do Estado. Nos séculos anteriores o Estado sempre foi forte, comandava e organizava a economia. Hoje em dia, as transnacionais vêm tirando o poder dos Estados, ele não tem mais a mesma autonomia, pois uma transnacional está acima do Estado.
Ficha 6
Territórios e redes geográficas
Território nacional é o espaço geográfico de um país, ou seja, é todo espaço físico que ele tem, somado a todas as relações sociais, culturais, econômicas, políticas nesse espaço. O espaço físico ou as relações por si só não são o território nacional. Quando dizemos que alguma empresa ou família se “territorializa” significa que ela se inseriu no espaço geográfico do território nacional.
Já rede geográfica é uma forma seletiva do espaço geográfico, um uso reticular, de modo que todas as relações não se inserem no espaço delimitado. Um bom exemplo é o condomínio fechado. Podemos perceber que é uma forma seletiva do espaço geográfico. As pessoas que ali moram tem suas relações sociais delimitadas apenas com os que moram no condomínio. O mesmo se aplica a empresas e lojas em shoppings ou calçadões. As relações são selecionadas.
Podemos dizer que as transnacionais se inserem nos países nas redes geográficas, se “territorializando” o mínimo possível. Muitas vezes o Estado cria um espaço esterilizado (com isenção de impostos, preço mais barato do terreno) para a entrada de uma transnacional acreditando que essa empresa irá trazer desenvolvimento, tecnologia, empregos, etc... Porém isso não acontece, e o Estado acaba ficando dependente dessa transnacionais e perde poder para a esfera global.
Espaço Nacional e Espaço Globalizado
Ainda não é possível dizer que exista um espaço geográfico global. O que ocorre são implantes globais nos espaços nacionais. Nessas redes geográficas as normas do espaço nacional não são válidas, as que valem são as que atendem a globalização.
Como já dito antes, o Estado vem perdendo seu poder, isto ocorre pois o Estado moderno não consegue dar conta de regular os empreendimentos econômicos e ao mesmo tempo cuidar das condições da população (educação, saúde, saneamento, moradia, etc.), por isso os Estados acabam entrando em crise com economias desestabilizadas. Então, com a idéia ilusória de trazer desenvolvimento econômico ao país, entendido como estar inserido na globalização, os Estados abrem as portas e esterilizam territórios para as transnacionais. A partir desse momento o Estado perde parte de seu poder, já que a economia não é regulada exclusivamente por ele.
Horizontalidades e Verticalidades
As relações podem ser divididas das seguintes formas:
Plano Horizontal: Conjunto de relações desenvolvidas no território nacional.
Plano Vertical: Conjunto de relações que se desenvolvem nas redes mundiais e ao mesmo tempo com os espaços nacionais.
Hoje em dia os países têm relações tanto no plano horizontal quanto vertical. Podemos explicar o mesmo processo de perda de poder do Estado com base nesses dois tipos de relações: As verticalidades das redes da globalização absorvem recursos públicos nacionais para se manterem funcionando e acabam determinando o modelo de desenvolvimento dos países.
Há uma grande polêmica sobre as riquezas geradas pela globalização. Os a favor da globalização afirmam que a melhor opção para os Estados se desenvolverem economicamente e socialmente é abrirem suas portas para a economia global. Por outro lado os críticos da globalização afirmam que isso não passa de um discurso ideológico para ocultar a ausência de benefício às sociedades nacionais e permitirem um livre comércio sem fronteiras, global, pois na esfera global não tem governo, limitações.
Ficha 7
A Modernização Brasileira
Desde a globalização, as nações vêm se modernizando e se aumentando a escala geográfica de suas ações, tanto no interno como no externo. Os Estados Unidos por exemplo, tem suas ações tão aumentadas que a escala de suas ações é planetária. O Brasil também vem realizando esse processo. Pois mesmo sendo produto de relações externas, ou seja foi criado de fora pra dentro, suas relações internas tem extrema escala de ação. Por esse motivo, não podemos estudar nossa nação com a geografia tradicional que se baseia em “descritivismos”, pois afinal, as relações sociais estão totalmente relacionadas com o espaço geográfico e dependem de como ele as molda.
A expansão do mundo moderno
A modernidade já vem se expandindo, pois é esta sua natureza, a duzentos anos. Ela começou com o surgimento dos estados modernos que são a estrutura da modernidade na Europa, por isso podemos chamá-la também de europeização ou ocidentalização.
Principais mudanças no período da modernidade
Surgimento do Estado centralizado: o Estado centralizado é o estruturador da modernidade. Ele é responsável pelo domínio militar e jurídico, transporte, saúde, saneamento. Pode interferir na economia. Entre outras funções.
Aparição das Nações: A idéia de nação surgiu no Renascimento para reforçar a integração do indivíduo com o novo Estado.
Mudança Radical da Economia: A economia cresce, devido ao crescimento do mercado e da produção. Isso só se dá devido a inovação tecnológica, o motor da economia.
Tecnização do Espaço Produtivo: Dá-se em dois caminhos: como parte do sistema produtivo e aumentando o espaço fluido, ou seja as comunicações entre o espaço geográfico com os avanços tecnológicos de transporte e comunicação.
O mercado como centro da vida material: Tanto as nações quanto os indivíduos ficaram totalmente dependentes do mercado. As formas de auto-subsistências tendem a sumir.
A urbanização do modo de vida: As cidades vêm se mostrando o principal lugar de se viver na modernidade. Isto ocorre pois ela facilita e aumenta as relações sociais e também a subordinação das pessoas ao mercado.
Novas fontes de poder político: Antes, as fontes de poder político pertenciam ao Estado Monárquico ou Absoluto, agora o poder político depende do poder econômico.
O surgimento do individualismo: O indivíduo se torna o principal personagem da modernidade, direitos humanos e individuais para o bem dele são criados.
Internacionalização da vida moderna: Como as nações vem procurando aumentar a escala de suas ações externas, ocorre uma exportação para todos os cantos do mundo.
Globalização: Forma do avanço da modernidade, principalmente no âmbito econômico.
A modernização, além de ter ocorrido de forma conflitante e desigual, não se deu plenamente em lugar algum, ou seja, nem mesmo as potências têm suas modernizações completas. A modernização tem alguns elementos decisivos:
1. A modernização nunca substitui o modo de vida preexistente em uma parte do planeta, ela transforma-o.
2. A modernização não ocorre ao mesmo tempo nas nações, hoje em dia, com duzentos anos, alguns países já estão bem avançados e outros ainda estão no começo, como por exemplo Brasil e Inglaterra.
3. A modernização é desigual e ocorre em diferentes velocidades em cada nação.
4. Apesar da modernização ter ocorrido no planeta inteiro, ela é diferente em cada país, não se pode generalizá-la, cada país é cada país.
A modernização e o Brasil
A modernização no Brasil ocorre desde a segunda metade do século XX, porém ela se iniciou num país completamente diferente do atual. O Brasil naquela época era rural, escravista, não tinha uma democracia forte. Ou seja, o país não estava pronto para se modernizar, porém de forma bruta isto ocorreu. Em 50 anos ocorreu uma intensa industrialização, um êxodo rural para as cidades, criação de infra-estrutura para a modernização, etc...
A modernização desigual
O que ocorreu no Brasil é que a economia se modernizou muito, enquanto o social e o político modernizaram muito pouco. Mesmo assim a modernidade alcançou o político-social, mas para atender a modernização do econômico. Graças a isso há essa grande desigualdade social no Brasil e os escândalos políticos. Acredita-se também que houve certo impulso do Brasil após a segunda guerra, mas só para alguns, o que aumentou a desigualdade.
Não podemos afirma que só as elites construíram o Brasil, as classes mais pobres também ajudaram, apesar de que as elites não enxerguem as classes pobres. Como a modernização social e o política foi voltada à econômica, apenas aqueles que conseguiram atingir um padrão econômico são beneficiados pelo social e pela política brasileira.
Ficha 8
A Nova Ordem Mundial
Para haver uma ordem mundial é preciso de um espaço mundial unificado, que só foi possível depois das expansões marítimas européias no séc XV e XVI. É impossível de haver uma ordem mundial se o mundo inteiro não participar. A ordem mundial é uma situação de equilíbrio instável entre as nações. Ela permanece até uma forte mudança e depois se configura de outra forma. Vale a pena ressaltar que o sentido de ordem não é positivista (sem conflitos) e sim dialética (com muitos conflitos), não é à toa que essa ordem é instável.
Junto com essa idéia, surge também a noção de potência mundial. No plano teórico, os Estados tem poder equivalente no mundo, porém ao olharmos na nossa ordem mundial isso não ocorre. O Estado de cada país só é soberano em seu território, na ordem mundial seu poder varia e depende diretamente das relações diplomáticas (política, força bélica) e das cotidianas (comerciais, financeiras, culturais) com outros Estados.
Uma ordem mundial é definida pelo número de potenciais mundiais. Se tiver apenas uma potência hegemônica, a ordem é chamada de unipolar, se tiver duas, bipolar, várias, multipolar. Hoje ainda está em discussão se vivemos em um mundo cuja ordem é unipolar ou multipolar. Os que defendem a unipolaridade afirmam que as relações diplomáticas são os fatores decisivos para ser uma potência mundial. Por isso os Estados Unidos é a grande potência, já que, após a derrocada da União Soviética, é o Estado com maior poderio bélico. Os que defendem a multipolaridade afirmam que as relações cotidianas são os fatores que definem se um Estado é ou não uma potência mundial. Eles acreditam que a maioria da Europa e os Estados Unidos são as grandes potências por terem um forte poder econômico.
As crises mundiais, como por exemplo a Guerra do Golfo, conflitos no Kosovo, a luta contra o terrorismo e a ocupação do Iraque, são usadas como argumento para ambos os lados. Para os que acreditam na unipolaridade, esses conflitos são evidências de que o Estados Unidos não tem concorrentes, no caso da ocupação do Iraque, nem mesmo a ONU foi capaz de pará-los. Já os que defendem a multipolaridade afirmam que nesses conflitos os Estados Unidos não atuou sozinho, ele buscou ajuda da Europa, China, Rússia e até da ONU.
Independente de ser unipolar ou multipolar, a nova ordem mundial tem papel importante no planeta. Seja com a Terceira Revolução Industrial, ou seja a revolução técnico-científica, uma globalização capitalista e o surgimento de blocos regionais (não sei se está correto, mas um exemplo pode ser a União Européia, ou até a nova união feita pelo nosso presidente na América do Sul). Esses três fatores têm extrema relação com o que vem ocorrendo hoje em dia. O novo mercado de trabalho, com mão de obra em menor número, porém com maior qualidade e também o crescimento da importância das telecomunicações são resultado da Terceira Revolução Industrial.
Ficha 9
Ensaio Sobre A Nova Ordem Mundial
Diferentemente do outro texto, que mostra os dois lados da nova ordem mundial, esse defende que ela é unipolar.
Estamos vivendo em uma época em que o Estado e assim como alguns órgãos internacionais como a ONU sofrem uma crise de poder. Isso ocorre graças à nova ordem mundial unipolar.
Acompanhada da globalização, a nova ordem mundial é caracterizada pela soberania política, econômica, militar, tecnológica e cultural. Os Estados Unidos, a atual potência mundial tem o poder soberano e com isso faz com que os outros Estados, em decadência, apenas sejam reduzidos em todos os âmbitos.
Voltando no tempo, o mundo já enfrentou fases de multipolaridade, e bipolaridade. A época multipolar pode ser considerada antecedente à Primeira e à Segunda Guerra Mundial, quando vários países dividiam a soberania econômica, política, cultural e militar do mundo. Logo depois dessa época surgiu o mundo bipolar, em que os Estados Unidos dividiam a soberania com a União Soviética. Com a queda do muro de Berlim em 1989 e a derrocada do “socialismo real” em 1991 o Estados Unidos assumiu a soberania do mundo sozinho, tornando a nova ordem mundial unipolar.
A grande potência mundial pode interferir de acordo com seus interesses em qualquer negócio, projeto, economia de outra nação. Qualquer nação que vá contra seus interesses é hostilizada.
O enfraquecimento dos Estados e da ONU se deve ao fato de que estes órgãos perderam sua soberania e assim seu poder político. Um Estado sem soberania é um simples território e a ONU é praticamente nada.
Como já dito antes, o fim da soberania dos Estados é o fim da política. Com o fim da política em cada nação acaba ocorrendo que o único país com política forte, os Estados Unidos, acabe sendo soberano. Com isso, a política fica sendo reduzida ao que vemos no Brasil, à mentira, promessas não cumpridas, governos corruptos. A política passa a ser apenas ilustrativa, e o pior, engana o povo, pois fica impedido de ver o real autoritarismo. Isto sem contar como facilmente o povo é manipulado, pois os meios de comunicação são controlados pelos donos dos meios de comunicação. Um exemplo é o Brasil, onde seus meios de comunicação reproduzem exatamente o que foi produzido lá fora, sem criar nada de novo, apenas copiando. Isto ocorre com idéias, hábitos, política, cultura em geral.
O fundamento dessa nova ordem mundial é a liberdade. Quantas vezes não ouvimos dizer que os Estados Unidos é o país da liberdade? E de fato sabemos que isso não é verdade. Vivemos em uma época em que ainda há desemprego, violência, medo do futuro.
O mundo é monopolizado pelo Estado-único, enquanto isso os outros Estados cedem seu poder a corporações transnacionais como o FMI, o BID, o Banco Mundial, o BIRD, etc...
Com base em tudo isso, pode-se concluir que na nova ordem mundial reina o mercado único. Além disso estabelece também um exército único (a OTAN?). Este é responsável por atender os interesses da potência mundial. O que percebemos ao observarmos as ações desse exército é que ele interfere em qualquer conflito independente da autorização da ONU. Um dos seus objetivos é intervir em movimentos separatistas, como por exemplo o conflito do Kosovo. Com Estados divididos e mais fracos, o Estado-único fica ainda mais forte. Muitas vezes os conflitos não são nem históricos ou étnicos e sim criados pela próprio OTAN.
A Pax Americana
A pax americana é uma analogia a pax romana que teve no Império Romano. Os romanos controlavam toda as tribos e cidades com a força bélica, impunha seus interesses e sua cultura. É o mesmo que ocorre atualmente, porém os Estados Unidos são os romanos e os resto do mundo é o resto do território romano. Mais da metade dos países do mundo é vítima ou está ameaçado por sanções econômicas decretadas pela potência. Já os países que foram contra os Estados Unidos, como Cuba, Coréia do Norte, Iugoslávia, Iraque, etc...foram atacados ou isolados do mundo. Os países que sofrem com isso não tem nada a fazer, pois se recorrerem a ONU nada irá acontecer, já que ela foi “esvaziada”, e mesmo se ela tentar fazer algo os Estados Unidos não irá obedecer, como fez quando invadiu o Iraque ou quando bombardeou a Iugoslávia.
Vale a pena ressaltar que o poder dos Estados Unidos é universal, ninguém pode impedi-lo e todos seus interesses ultrapassam os limites territoriais do país, ou seja, seus limites geográficos são os limites do mundo.
A Globalização da Nova Ordem Mundial
Como já dito antes, a nova ordem mundial e a globalização estão interligadas. Como já estudado, a globalização é a mundialização do capital, ou seja, a expansão do capitalismo financeiro em cima do capitalismo de produção. Com isso gera um mercado livre e único, que leva consigo aspectos além de econômicos, como culturais, militares, ideológicos, etc...
Ela homogeneíza a cultura, o american way of life, homogeneíza o exército, a OTAN, homogeneíza o povo, homogeneíza a ideologia, com a idéia do bem e do mal. Enquanto os Estados Unidos é o bem, os países que vão contra são o mal e para justificar seus atos acusa-os de terrorismo, criadores de armas nucleares ou socialistas.
Os Estados Unidos e a Globalização: um caso de sucesso econômico
Com certeza o país que mais se beneficiou com a globalização, como mostrado em todo texto, foi os Estados Unidos. Enquanto a maioria dos países passava por crises, os Estados Unidos crescia. O que para a hegemonia dos americanos é melhor ainda pois acentua sua soberania. Além disso, podemos concluir que a riqueza dos Estados Unidos é uma das causas da pobreza do mundo.
O resumo do texto 9 ficou meia boca, e parei só até o penúltimo tópico, pois me falaram que os dois últimos não iam cair.
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segunda-feira, 9 de maio de 2011
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Textos para 1a. série / Ensino Médio - 2o. bimestre
Textos para 1a. série / Ensino Médio - 2o. bimestre
1. A mudança das distâncias geográficas e os processos migratórios
Geografia – 1ª. Série – EM
Em Geografia, pode-se afirmar que a globalização diz respeito à construção de novos espaços e novas relações sociais desenvolvidas no mundo. Trata-se de uma nova configuração geográfica que se superpõe aos territórios nacionais, por vezes conflituosamente, outras em harmonia. Isso pode significar mudanças importantes nos próprios Estados nacionais com a presença, em seus territórios, de pontos de rede de corporações transnacionais e de redes técnicas, propiciando um aumento extraordinário da circulação de capital, de bens industrializados, de serviços e informações produzidos na escala mundial.
Essa agilidade da circulação se dá porque os espaços globais são suportes ativos dos processos socio
econômicos que ocorrem na escala mundial. Esses negócios são alimenta¬dos pelo que há de mais avançado em tecnologias de produção e de circulação. Assim, es¬ses espaços da globalização se realizam como expressões geográficas da nova ordem mun¬dial. Vamos desvendar a lógica desses espaços que, fundamentalmente, se estruturam em forma de redes; conhecer os ritmos de suas relações, cada vez mais aceleradas e; identificar os principais agentes que os alimentam, como as corporações transnacionais.
Vamos começar com a formação populacional brasileira, mais especificamente, a contribuição dos processos migratórios estrangeiros. Que grupos vieram e para onde foram no território brasileiro? Quando? Qual a distância que esses imigrantes percorreram e as condições em que viajaram? Quanto tempo as viagens duraram? Vamos trabalhar com um caso expressivo, em razão da grande distância geográfica envolvida: a migração japonesa para o Brasil.
O Brasil é o país que tem a maior comunidade japonesa no exterior (exterior porque estão fora do Japão). São 1.500.000 pessoas entre japoneses e seus descendentes. Isso é resultado de uma onda imigratória proporcionada pelo Trata¬do de Amizade, Comércio e Navegação Brasil-Japão, assinado em 05/11/1895. De 1908 a 1941, migraram para o Brasil 188.986 japone¬ses. Esse fluxo foi interrompido pela Segunda Guerra Mundial e retomado nos anos 1950, quando vieram mais 53.555 imigrantes.
Eram 52 dias de desgastante viagem de navio. Se um imigrante não gostasse do que encontrou, dificilmente poderia "bater em retirada" e retornar à sua terra natal. Retornar apenas para visitar o Japão, durante muito tempo, não foi algo possível para muitos. Era muito caro percorrer uma distância geográfica tão grande.
A distância é 18.550 km; significa 55 dias de navio. Hoje, corresponde a 24 horas de vôo de avião. Em termos gerais, para as populações atuais desses dois países, essa mesma distância é ou¬tra, tem outro significado em suas vidas.
O que aconteceu para mudar radicalmente o sentido desses 18.550 km? Uma aceleração no percorrer da distância geográfica. Uma aceleração dada pelo desenvolvimento e pelo acesso a novos meios tecnológicos que fizeram o espaço geográfico ser outra coisa; uma ace¬leração que altera as relações entre essas duas sociedades (Brasil ↔ Japão).
A situação se inverteu: agora são 225.000 brasileiros que estão trabalhando no Japão. Estão impossibilitados de voltar se não gos¬tarem? Podem visitar os parentes que ficam no Brasil com regularidade? Esses parentes podem ir até eles? Eles são imigrantes, como os japoneses do início do século XX, que esta¬vam trocando definitivamente de vida?
A visão anterior sobre a migração estrangeira era marcada pela visão de atitude definitiva. A quebra da rigidez da migração, hoje, transformou em algo mais temporário, transitório, e isso se deu em função da no¬vas condições de mobilidade do ser humano, um produto da aceleração dos fluxos.
Observe o mapa “As migrações, final do século XX” na página 5 do caderno do aluno. Vamos aproveitar o mapa para exercitar a linguagem cartográfica, chamando a atenção para algumas características dele:
a) a projeção cartográfica: os mapas são planos e a superfície terrestre é curva. Não há meios de se colocar no pla¬no as dimensões - formas, extensão e distância – da superfície terrestre (por exemplo, dos blocos continentais). Por isso, todos os mapas possuem deformações. É importante saber quais são essas deformações. A transposição do espaço curvo para o plano se faz com as chama¬das projeções cartográficas. Por exemplo: nesse mapa, a projeção cartográfica é a de Bertin. Com ela, o autor conseguiu manter a extensão e as formas das terras emersas (fora da água). É uma projeção boa para mostrar que, as relações humanas e seus bens (os fluxos) estão muito intensas;
b) o mapa para ver: onde estão os maiores fluxos de imigrantes, mas isso num bater de olhos? Essa identificação é simples e óbvia. Não haverá necessidade de se con¬sultar a legenda. A comunicação desse mapa é feita por sua imagem em conjunto: é um mapa para ver. As setas indicam direções e esse símbolo é universal. A largura das se¬tas comunica visualmente a maior ou me¬nor quantidade do fluxo. Mas, além das setas, o mapa traz outra informação visual. Os países estão coloridos de cinza ou de tons de rosa (mais fracos e mais fortes). Essas tonalidades de cor significam menor ou maior presença de imigrantes na formação da população dos países. Elas criam uma ordem entre os países nesse aspecto. Por exemplo, na atual formação da população brasileira, há menos imigrantes, proporcionalmente, do que na formação populacional dos EUA;
c) a representação dinâmica e ordenada: por intermédio de linhas (setas), esse tipo de representação mostra o movimento dos fluxos no espaço terrestre de imigrantes no final do século XX. Por mostrar esse movimento, ela é chamada de representação dinâmica, adequada para representar fluxos. E por intermédio do tom de cinza e dos tons de rosa cria-se uma ordem entre países que têm mais e que têm menos imigrantes na composição das suas respectivas populações, por isso, essa dimensão do mapa é chamada de representação ordenada;
d) a variável visual tamanho e variável visual valor: o mapa repre¬senta dois fenômenos:
1) o fluxo migra¬tório e sua dinâmica espacial. Porém, es¬ses fluxos são de diferentes quantidades. Como expressar isso visualmente? Por meio da largura (tamanho) das setas. Essa é a variável visual tamanho, essencial na cartografia para representar a proporcio¬nalidade entre as coisas. Por isso, quando se vê um mapa bem feito, essa proporcio¬nalidade se imprime imediatamente em nossos olhos;
2) a participação na composição da população dos imigrantes segundo classes, fenômeno representado por meio da variável visual valor, onde tonalidades da cor do mais escuro para o mais claro expressam valor da cor. Essa relação é direta para nosso olhar.
Interpretando o mapa, as localidades no planeta que estão recebendo os maiores fluxos migratórios no momento são EUA (bem a frente de todos), Europa Ocidental e Golfo Pérsico. Os principais fluxos, como os do México e da América Central para os EUA, possuem direção sul para norte. Há fluxos também do Sudeste Asiático para os EUA, da África para a Europa e assim por diante. Essa evidência indica fluxos do sul para o norte, que na verdade expressam fluxos dos países pobres para os países ricos. A maior mobilidade dada pelas novas condições espaciais gera outros fluxos inusitados, alguns temporários, como da Índia para Dubai (grande cidade na entrada do Golfo Pérsico). Algumas das áreas que atualmente recebem os maiores de imigrantes, como a América do Norte e a Europa, já têm uma participação expressiva de imigrantes no conjunto de sua população. Algumas outras, como a Austrália, que também estão nessa condição, já não recebem mais fluxos vigorosos de imigrantes. Embora tenhamos ouvido a história de que o Brasil é um país formado por imigrantes, considerando a segunda metade do século XX, deixamos de estar envolvidos de modo importante no conjunto das correntes migratórias internacionais. Isso se revela pela baixa participação dos imigrantes no conjunto da população e pelo volume atual dos fluxos que envolvem nosso território.
Veja os grandes sistemas (movimentos) migratórios contemporâneos, que devem-se à pobreza, a fenô¬menos de proximidade geográfica e a liga¬ções históricas:
- Os sistemas sul para o norte, que drenam a maioria dos imigrantes (normalmente em busca de melhores condições econômicas);
- Refugiados do Norte da África para a França, em função das ações do Magreb (grupo ligado à rede terrorista islâmica liderada pelo saudita Osama bin Laden, na região de Cabília - cidade 70 km a leste de Argel, a capital da Argélia, na África);
- Antigo império das Índias para a Inglaterra;
- Turquia para Alemanha.
- Europa do Leste envia imigrantes, mas também os recebe;
- Índia - Paquistão para países petroleiros do Oriente Médio;
- América do Sul e Central para os EUA.
O mapa de fluxos migratórios nos dá uma visão atual do volume e das direções das correntes migratórias internacionais, assim como a participação dos imigrantes na composição geral das populações dos países.Mas não é possível, por meio dele, concluir sobre a aceleração dos fluxos em relação aos movimentos migra¬tórios ao longo do século XX. Houve expressivo au¬mento do fluxo migratório dos anos 1960 para nossos dias em certas regiões do mundo: EUA, Europa Ocidental etc. em escala planetária entre os Esta¬dos modernos. As direções geográficas desses fluxos, a mudança dessas direções, o volume quantitativo desses movimentos e alteração contemporânea desses volumes implicam numa aceleração dos fluxos e em formas mais acessíveis de administração das distâncias ge¬ográficas (fase descritiva do processo).
Observe o gráfico “Evolução dos efeitos de migrantes, 1910-2000” na página 8 do caderno do aluno. Ele nos mostra apenas uma evolução, no tempo, dos países recebendo imigrantes, mas não nos dá os fluxos, a dinâmica espacial direta e integralmente. O gráfico mostra que houve expressivo aumento do fluxo migratório dos anos 1960 para nossos dias em certas regiões do mundo: EUA, Europa Ocidental, etc. Essas representações visuais de qualidade formam imagens sobre os fluxos migratórios em escala planetária entre os Estados modernos: as direções geográficas desses fluxos; a mudança dessas direções; o volume quantitativo desses movimentos; e alteração contemporânea desses volumes, o que implica numa aceleração dos fluxos e em formas mais acessíveis de administração das distâncias geográficas (fase descritiva do processo).
Problematizacão dos fluxos migratórios internacionais: aceleração e fechamento de fronteiras
É muito comum atualmente falar de ace¬leração da história. Os eventos humanos se precipitam mais velozmente e as transforma¬ções históricas são mais rápidas. Desde que o ser humano se sedentarizou no neolítico, ele nunca se moveu tanto como agora. E esse aumento de mobilidade geográfica está asso¬ciado à aceleração da história. O aumento da mobilidade geográfica de bens, de mercado¬rias e pessoas é a globalização das relações humanas, cujo potencial transformador já demonstrou seu poder, embora muito ainda esteja por acontecer.
Nesse novo cenário, um famoso historia¬dor costuma afirmar: o documento mais im-portante nesse mundo globalizado não é a carteira de identidade e sim o passaporte. E isso nos dirige para a reflexão sobre os fluxos migratórios internacionais contemporâneos. Veja as características das migrações internacionais contemporâneas na página 10 do caderno do aluno.
Duas condições para que as imigrações se acelerem:
1. é mais fácil viajar, pois os meios são mais efi¬cientes e os custos mais baratos e;
2. pode-se fazer experiências temporárias.
Porém, há restrições político-sociais ao processo mi¬gratório. Por isso, o que menos circula no "mundo globalizado" são as pessoas. Mes¬mo assim, as migrações cresceram bastante em comparação com o passado:
a) No início do século XXI, o fechamento das fronteiras fez aumentar o número de clandestinos, o que é difícil de estimar. Por exemplo: seriam uns sete milhões nos EUA;
b) Para os países de origem, as consequên¬cias são por vezes negativas, como por exemplo, no caso da fuga de cérebros (pessoas com grande potencial – por exemplo, sua inteligência – e que acabam usando isso em outro lugar, não no seu país de origem);
c) As consequências são positivas para gru¬pos que permanecem, em razão da remes¬sa de recursos: em 2005 foram 225 bilhões de dólares, o que representa mais que a ajuda oficial direta para o desenvolvimen¬to de alguns países. Por vezes, um imigrante sustenta, em média, dez pessoas.
2. A globalização e as redes geográficas
Quando se fala em globalização, é possí¬vel se entender várias coisas, mas há uma que todos entendem: existe uma presença muito maior do mundo em cada localidade. Isso se expressa pela enorme presença de produtos de diversas partes do mundo e também pelo número elevado de informações sobre o mundo. Parte expressiva do que ocorre, do que se faz, do que se pensa em outras localidades pertence agora a nossa realidade.
Há uma nova organização do espaço geográfico que permite que o mundo esteja aqui e que estejamos no mundo e que a ele pertençamos. Essa nova organização permite que os fluxos se acelerem. E essa nova ordem geográfica é uma ordem de redes geográficas. Palavras-chave na Geografia, como espaço e território, hoje, devem ser acompanhadas por mais uma da mesma importância, a rede geográfica, que é a forma principal dos espa¬ços da globalização.
Os territórios nacionais possuem frontei¬ras, distâncias geográficas, culturais, políticas e econômicas diversas, mas o contato entre suas populações é cada vez mais intenso e isso se dá por meio de um "concorrente" do território: a rede geográfica. A rede geográfica tem o poder de ultrapassar as fronteiras nacionais. Existiria exemplo mais acabado dessa nova realidade do que a rede técnica mundial da in¬ternet?
Veja os mapas “Internautas, 1991-2006” e “Mundo: posse de computadores pessoais no mundo, 2002”, nas páginas 13 e 14, respectivamente. São mapas quantitativos que fazem uso da variável visual tamanho, mapas para ver, pois devido à força expressiva da imagem, qualquer pessoa que os veja, vai perceber que o fenômeno representado é mais relevante nos EUA mesmo sem sa¬ber de que fenômeno se trata. “Internautas” é um mapa ordenado que faz uso da variável visual valor (tonalidades de uma única cor, no caso o marrom). As tonalidades mais escuras expressam um número maior de internautas (usuário individual) em grupos de 100 habitantes (o valor mais elevado é de 87,7 por 100) e as mais claras, o contrário. O mapa é acompanhado por um gráfico evolutivo e quantitativo que, por sua vez, faz uso da variável visual tamanho e mostra o crescimento do número de internautas no período de 1991-2006, indicando também o número de vezes que o volume de internautas foi multiplicado. O mapa “Mundo” tem uma força comunicativa poderosa e ao mesmo tempo revela de forma aguda certos fenômenos geográficos.
Ao examinar essa representação, é interessante ter ao lado um mapa mundi convencional. Para definir o tamanho dos continentes, utilizou-se uma métrica numérica, uma medida que não é a convencional com base em km2. Não foi uma métrica territorial. Essa anamorfose sobre a posse de computadores pes¬soais poderia não comunicar grande coisa se não tivéssemos todos, uma familiaridade muito grande com as formas convencionais do mapa mundi. Mas como a temos, logo percebemos a força comunicativa das defor¬mações.
A linguagem das representações cartográficas foi uma preparação para a exploração cognitiva delas em conjunto. Afinal, elas, cada qual à sua maneira vão dar uma idéia dessa inovação revolucionária na vida humana e na estruturação dos espaços geográficos graças à rede técnica mundial da internet.
Redes geográficas: o espaço de ação das corporações transnacionais
Vamos esclarecer um dos enigmas da globalização e do mundo contemporâneo: a diferença entre termos que parecem ter o mesmo significado. Entre empresa e corporação a diferença é: uma corporação é um grupo que reúne várias empresas de diversos ramos e que concentra muito capital e interesses sob um único controle. Há cor¬porações que têm empresas que atuam no ramo do petróleo, no industrial, no agronegócio, no sistema financeiro e na produção de filmes para cinema e televisão, por exemplo. Isso só explica que, quan¬do os lucros crescem, os grupos econômicos vão diversificando seus negócios e suas localizações, a fim de garantir maiores lucros. A empresa é individual, só atua em um ramo.
Mas o que significa essa diferença entre uma multi nacional e uma trans nacional? Observe o esquema simples da página 18 no caderno do aluno. Observem especialmente a presença e o papel das corporações trans¬nacionais no esquema. Que espaços, de fato, são aqueles em que as corporações baseiam suas atividades? Serão os espaços nacionais (territórios nacionais) convencionais? As corporações econômicas mais poderosas transcendem os espaços nacionais e criam um espaço global com base numa malha de redes técnicas e geográficas.
Um autor importante pode ser citado nes¬se momento. Trata-se do geógrafo brasileiro Milton Santos:
"O interesse das grandes empresas é economizar tempo, aumentando a velocidade da circulação [...] Corporatização do território é a destinação prioritária de recursos para atender as necessida¬des geográficas das grandes empresas."
SANTOS. Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo - razão e emoção. São Paulo: Edusp, 2008. p. 270.
Os fluxos de mercadorias, de serviços, de informações circulando rapidamente pe¬las redes técnicas (transportes e teleco¬municações) no mundo todo permitem o acesso a vastos mercados (e muito mais). As corporações que têm acesso, controle e investimento nessas redes técnicas obtém desse fato uma grande dose de poder econômico.
O prefixo multi significa muitos. Assim, multinacional é uma empresa que opera em vários países, constituída por grandes aglomerados industriais e financeiros. E transnacional? Transcender significa ultrapassar, ser superior. Assim, transnacional é uma empresa que ultrapassa os limites do país em que tem sua sede: está sediada num país e opera a produção ou parte dela em outros. Os dois conceitos se completam: grandes empresas que estão sediadas nos países desenvolvidos e operam ou controlam a produção nos países subdesenvolvidos. O termo global (globalização) refere-se a um processo em andamento, pois na verda¬de há muitas áreas ainda fora desse processo (as regiões em branco, os clarões), que sofrem uma “marginalização” em relação à globalização. Essas áreas "fora do eixo" da globalização foram designados como os deserdados da ordem mundial, áreas onde justamente registram-se eventos trágicos, guerras civis e conflitos regionais, tema estudado anteriormente.
Um exemplo de funcionamento de uma rede geográfica em outro cenário, muito útil para compreender o funcionamento das redes na escala mundial, é a cidade de São Paulo. Essa me¬trópole sofre desde os anos 1980 uma profunda reestruturação no seu espaço geográfico: seu território está "invadido" por redes geográficas que se estruturam do seguinte modo:
• Pontos: habitações em condomínio fechado ↔ centros administrativos isolados também em formato de condomínio fechado ↔ centros comerciais (shopping centers, hipermercados) fechados e protegidos ↔ outras instalações do tipo (hotéis, resorts urbanos).
• Linhas: vias expressas, avenidas, cuja circu¬lação é predominantemente automobilística.
Os usuários dessas redes geográficas pro¬curam concentrar o fundamental de suas vi-das em seu interior: residência, abastecimento, trabalho, estudos, lazer etc. E se possível, rara¬mente saem da rede, evitando assim o território pleno da cidade. Pesquisas mostram o número impressionante¬mente alto de habitantes da cidade que jamais foram ao seu centro histórico, jamais usaram transporte coletivo e jamais andaram a pé.
Há um custo financeiro para viver nessa rede protegida e ele não é baixo, o que resulta numa "seleção social” e diminui as trocas e as relações entre a população da cidade, em vista dessa separação (segregação?) sofisticada, na sua geografia. As trocas, as relações sociais desses usuários e construto¬res de redes se dão quase que somente entre eles. E o que isso tem a ver com as redes geográficas de escala mundial, construídas e alimentadas pelas corporações transnacionais?
Mais de 50% da circulação de capitais, de bens de produção, de serviços, de tecnologia que as corporações transnacionais põem em movimento ocorrem internamente às suas pró¬prias redes. Outro ângulo dessa lógica: 30% das exportações mundiais são trocas no interior das redes das corporações. É uma movimentação econômica que não se irradia para os territó¬rios dos países onde elas não instaladas.
Essa radiografia geográfica da estruturação transnacional das corporações revela:
1. a im¬portância das redes geográficas na globalização que se constrói;
2. um pouco das estratégias e do poder dessas grandes empresas.
Muitos da¬dos econômicos podem ser alinhavados para dimensionar mais amplamente a ação das corporações, mas eles poderão ganhar mais signi¬ficado se sua lógica espacial for considerada.
3. Os grandes fluxos do comércio mundial e a construção de uma malha global
O comércio é por definição uma forma de relação humana que implica colocar em contato grupos sociais diferentes. Na origem da história humana para um grupo A interessava obter de outros grupos aquilo que não se con¬seguia produzir, aquilo que somente outros grupos possuíam. Esse gênero de relação exigia estender relações sobre espaços mais amplos, obrigava a abrir caminhos, rotas e construir portos, estimulava a criação de novos meios de transporte e impunha a criação de estruturas para os comerciantes. Como se vê, o comércio é uma atividade humana produtora de novos es¬paços humanos e uma atividade que ensinou o ser humano a lidar com a distância geográfica.
No mundo contemporâneo tudo isso in¬tensificou extraordinariamente. Com os no¬vos meios disponíveis, as atividades comer¬ciais aumentaram o poder de uma das forças propulsoras da "fabricação" de novos espa¬ços e do aperfeiçoamento dos meios de supe-ração da distância entre as realidades geográ¬ficas.
Vamos pensar nas marcas de produtos comerciais que frequentam nosso dia-a-dia. Qual a origem nacional da marca? Numa série de produtos (roupas, calçados e eletrônicos, por exemplo) onde é a localidade da fabrica¬ção? São duas coisas diferentes: um produto pode ter uma marca de origem americana e ser produzido na China. Uma marca pode ser francesa e seu produto pode ser, ao menos em parte, produzido no Brasil.
Isso revela a complexidade das relações atuais, num mundo globaliza¬do, embora uma relação comercial, ao pé da letra, resuma-se à saída do local de pro¬dução (ou ponto de venda) até o ponto do consumo.
Os fluxos de produtos que chegam até nós vêm do mundo, de um sistema produtivo e comercial que se organiza na escala mundial, não somente dos nossos vizinhos, do mundo ocidental ou do extremo oriente.
O comércio como acelerador dos fluxos; aceleração dos fluxos intensificando o comércio
O mundo contemporâneo é complexo. Isso não quer dizer complicado, como é comum se pensar. Complexo significa que cada realidade isolada é sempre produto do conjunto da realidade total, ou das diversas realidades em relação. Durante os últimos 50 anos as exportações mundiais aumentaram em volume, nove vezes mais rápido que a produção mundial. Produz-se mais, mas se comercializa entre países muito mais ainda. Quer dizer que boa parte da produção antigamente circulava mais no interior dos pró¬prios países onde eram produzidas; hoje a produção circula muito mais numa escala geográfica mais ampla: circula o mundo.
O comércio não cresceu por si só, porque tem mais gente com¬prando bens. O comércio cresceu porque uma série de eventos e transformações cruzadas nes¬se nosso mundo propiciaram essa condição (e que já estudamos): a aceleração dos fluxos, as redes técnicas, a força das transnacionais e suas redes geográficas, a geopolítica, a ordem mundial e a ação das potências, que permitiram nesses últimos 50 anos que os mercados nacionais nada mais fossem que "seções" de um único e imenso mercado mundial. Outros exemplos de eventos que propiciaram o crescimento do comércio: desenvolvimentos tecnológicos, a multiplicação dos meios de compra e informação sobre os produtos, o afrouxamento das fronteiras dos Estados nacionais territoriais etc.
A imagem dos fluxos comerciais no mundo contemporâneo é forte. Nunca o planeta pareceu tão pequeno, tal a dimensão dos fluxos e as distâncias que eles percorrem. Longos trajetos, outrora feitos apenas por aventureiros, atualmente são as principais rotas comerciais do mundo. Rotas oceânicas percorridas por navios que ancoram em portos, abarrotados e congestionados de mercadorias, e rotas aéreas que chegam em pontos antes inalcançáveis resultam da busca desenfreada por novos mercados, por novos consumidores.
O comércio, obviamente, não ocorre somente na escala mundial, isto é, na relação entre continentes e países diferentes. Os fluxos ocorrem internamente dentro de uma região, numa escala inferior: produção no país/continente e consumo no país/continente.
O grande desafio da cartografia contemporânea não é localizar com precisão fenômenos geográficos, pois isso já está pronto e atualizado pelas imagens de satélite; o grande desafio está em conseguir expressar visualmente as relações espaciais que se desenvolvem num mundo cada vez mais complexo, ou seja, a utilização da linguagem. Para se produzir um mapa, antes de tudo, é preciso ter acesso às informações, à base de dados que será objeto da representação. Na cartografia temática contemporânea, há uma tendência em se preferir as projeções do tipo da de Buckminster Fuller ou a de Bertin para a representação de fluxos comerciais (lembre-se do mapa do tema 5, dos fluxos migratórios). Elas aproximam os blocos continentais, eliminam as imensas distâncias oceânicas e dão uma idéia mais expressiva e real do que são os fluxos no mundo contemporâneo. Projeções como a de Peters ou a de Mercator têm uma proeminência muito grande dos oceanos e expressam visualmente distâncias longuíssimas entre o extremo da Ásia e as Américas, por exemplo. A seta é compreendida, universalmente, como símbolo gráfico adequado para representara direção dos fluxos, pois permite expressar quantidade com a manipulação de seu tamanho (largura). Setas largas estarão representando fluxos de maior quantidade; mais estreitas, o contrário. Definir símbolos de comunicação não dá margem a diferentes interpretações. O que se vê tem sempre que ter sempre um único significado. Os blocos continentais no fundo do mapa devem ter uma única cor para todos. Uma cor leve e neutra para não ofuscar as setas. Define-se uma única cor para as setas e elas não podem se sobrepor umas às outras. Se fossemos montar um mapa com o tema “Comércio mundial de mercadorias”, constariam dados do comércio que poderiam ser representados cartograficamente em quadrados ou círculos (quanto maior, significa maior o volume negociado) ou por setas, e os números poderiamos colocar em uma legenda (resultando em uma representação quantitativa, pois apresenta números).
Hoje, os fluxos mais importantes no comércio mundial de mercadorias estão entre a Ásia e a América do Norte, entre a Ásia e a Europa Ocidental e entre a América do Norte e a Europa Ocidental. O fluxo da Ásia para a América do Norte é maior, mesmo com a imensa distância oceânica (que foi superada por conta da globalização, que encurtou as distâncias, realidade no mundo contemporâneo). O fluxo gira em torno da América do Norte, Europa e Ásia, mas os maiores fluxos ocorrem entre os países desenvolvidos para os subdesenvolvidos (tanto saída como entrada de mercadorias). Já os menores fluxos estão entre os próprios países subdesenvolvidos (tanto saída como entrada de mercadorias).
A Ásia aumentou significamente suas exportações, principalmente para os EUA e Europa e se consolidou como um grande pólo exportador. Muitas transnacionais, que normalmente tem sede nos EUA e Europa, começaram a produzir nos países deste continente (China, por exemplo), para baratear a produção. E a mão-de-obra é farta e barata, aumentando a produção em grande escala e negociação de seus produtos por preços mais baixos. Os EUA são o maior comprador nesse tipo de relação e isso é uma participação fundamental, pois esse país é um grande mercado. Seu papel, como exportador, é um pouco menor, o que contraria uma visão de país forte (aquele que mais vende e que menos compra). Mas essa visão não corresponde ao modo como a economia global se organiza atualmente. Nesse modelo, importação e exportação não têm o mesmo peso de épocas anteriores. Por isso, os EUA não perderam sua importância no comércio internacional. O peso do comércio em escala regional (no mesmo continente, país ou região) ainda é grande, mas o comércio entre os continentes, ou seja, escala global (inter-região) está crescendo cada vez mais.
4. Regulamentar os fluxos econômicos na escala mundial: é possível encontrar um bem comum?
A mobilidade humana ampliou-se, não há dúvidas. Na escala mundial as relações da globalização articulam uma malha de redes geográficas, alimentadas por redes técnicas, que se constituem numa nova configuração geográfica, acelerando impressionantemente os fluxos de bens econômicos e de pessoas. É certo que os bens econômicos (mercadorias, capitais, serviços, informações) circulam com muito mais desenvoltura nessa dimensão glo¬bal do que os seres humanos. Mas também há constrangimentos na circulação dos fluxos econômicos. Aliás, mais que constrangimentos: há conflitos.
Vale relembrar uma razão: a ordem mun¬dial existente se estrutura no interior da relação entre os países. No entanto, essas relações são desiguais:
1. alguns países são potências que atuam agressivamente;
2. agora há tam¬bém corporações privadas bem mais pode¬rosas que muitos países;
3. de modo geral, os fortes e os fracos nessa ordem só têm uma referência ao relacionar-se, que são seus pró¬prios interesses. E sem dúvida isso vai signi¬ficar problemas para a livre circulação dos bens econômicos; aliás, essa livre circulação dos bens econômicos vai significar proble¬mas para cada país.
A regulamentação dos fluxos econômicos mundiais é objeto de muitos debates, pois há muitas críticas sobre a globalização que libe¬raria forças que, em tese, causariam prejuízos às economias nacionais. Os Estados nacionais territoriais - inclusive os países mais ricos, quando percebem seus interesses nacionais contrariados, clamam por regras. É no inte¬rior desse quadro que se vêm estruturando organizações internacionais que procuram regulamentar os fluxos econômicos.
Do GATT à OMC: um percurso espinhoso que se dirige ao desconhecido
Em 1948, período de esgotamento da Segun¬da Guerra Mundial, o cenário mundial (não era bem a escala mundial, mas sim Europa ocidental e EUA) favorece a busca da eliminação de qual¬quer tipo de conflito. Afinal, a tragédia estava vertendo sangue naquele momento e os custos para remover as ruínas e erguer um novo siste¬ma econômico se anunciavam astronômicos.
Para se dinamizarem, as economias depen¬diam de relações econômicas para além da escala nacional. Dependiam da remoção dos protecionismos, uma chave importante para a interpretação dos conflitos e das proposições para resolver a questão dos fluxos econômicos internacionais.
Leia atentamente o texto informativo sobre os organismos econômicos internacionais na página 34 do caderno do aluno. Nele encontra-se um panorama sinté¬tico dos caminhos percorridos nos últimos 50 anos para se estabelecer meios e regras na or¬dem dos fluxos econômicos mundiais.
Num mun¬do de menores desigualdades econômicas - mundo que não existe – os países buscam um bem comum através de acordos, tratados, san¬ções, punições e protecionismos. Os países se movem pela lógica geopolítica. As referências e os objetivos a serem alcançados por cada país são os interesses de cada um. Agindo assim, não é mais fácil chegar à guerra do que à har¬monia?
Algo espe¬cífico, que une as relações econômicas e a Geopolítica, se encontra no texto e deve ser notado para desenvolver-se uma linha de raciocínio: o acordo comercial (GATT) foi concebido para promover a paz e combater o protecionismo, que é o "promotor da guerra". Para o horror dos economistas, a vida real, nesse caso, invade a lógica econômica. O que é o protecionismo comercial? E por que isso causaria guerra? Se proteger pode causar a guerra, nesse caso, a proteção ganha o sentido de agressão. Não é interessante? Vale raciocinar so¬bre isso, refletindo sobre o caso atual que o texto destaca no seu final: os EUA e a União Européia praticam o protecionismo em relação à sua agricultura, pois temem a cir-culação mais livre dos produtos agrícolas dos países emergentes e pobres, o contrário da filosofia que estaria na base da fundação da OMC.
1. A mudança das distâncias geográficas e os processos migratórios
Geografia – 1ª. Série – EM
Em Geografia, pode-se afirmar que a globalização diz respeito à construção de novos espaços e novas relações sociais desenvolvidas no mundo. Trata-se de uma nova configuração geográfica que se superpõe aos territórios nacionais, por vezes conflituosamente, outras em harmonia. Isso pode significar mudanças importantes nos próprios Estados nacionais com a presença, em seus territórios, de pontos de rede de corporações transnacionais e de redes técnicas, propiciando um aumento extraordinário da circulação de capital, de bens industrializados, de serviços e informações produzidos na escala mundial.
Essa agilidade da circulação se dá porque os espaços globais são suportes ativos dos processos socio
econômicos que ocorrem na escala mundial. Esses negócios são alimenta¬dos pelo que há de mais avançado em tecnologias de produção e de circulação. Assim, es¬ses espaços da globalização se realizam como expressões geográficas da nova ordem mun¬dial. Vamos desvendar a lógica desses espaços que, fundamentalmente, se estruturam em forma de redes; conhecer os ritmos de suas relações, cada vez mais aceleradas e; identificar os principais agentes que os alimentam, como as corporações transnacionais.
Vamos começar com a formação populacional brasileira, mais especificamente, a contribuição dos processos migratórios estrangeiros. Que grupos vieram e para onde foram no território brasileiro? Quando? Qual a distância que esses imigrantes percorreram e as condições em que viajaram? Quanto tempo as viagens duraram? Vamos trabalhar com um caso expressivo, em razão da grande distância geográfica envolvida: a migração japonesa para o Brasil.
O Brasil é o país que tem a maior comunidade japonesa no exterior (exterior porque estão fora do Japão). São 1.500.000 pessoas entre japoneses e seus descendentes. Isso é resultado de uma onda imigratória proporcionada pelo Trata¬do de Amizade, Comércio e Navegação Brasil-Japão, assinado em 05/11/1895. De 1908 a 1941, migraram para o Brasil 188.986 japone¬ses. Esse fluxo foi interrompido pela Segunda Guerra Mundial e retomado nos anos 1950, quando vieram mais 53.555 imigrantes.
Eram 52 dias de desgastante viagem de navio. Se um imigrante não gostasse do que encontrou, dificilmente poderia "bater em retirada" e retornar à sua terra natal. Retornar apenas para visitar o Japão, durante muito tempo, não foi algo possível para muitos. Era muito caro percorrer uma distância geográfica tão grande.
A distância é 18.550 km; significa 55 dias de navio. Hoje, corresponde a 24 horas de vôo de avião. Em termos gerais, para as populações atuais desses dois países, essa mesma distância é ou¬tra, tem outro significado em suas vidas.
O que aconteceu para mudar radicalmente o sentido desses 18.550 km? Uma aceleração no percorrer da distância geográfica. Uma aceleração dada pelo desenvolvimento e pelo acesso a novos meios tecnológicos que fizeram o espaço geográfico ser outra coisa; uma ace¬leração que altera as relações entre essas duas sociedades (Brasil ↔ Japão).
A situação se inverteu: agora são 225.000 brasileiros que estão trabalhando no Japão. Estão impossibilitados de voltar se não gos¬tarem? Podem visitar os parentes que ficam no Brasil com regularidade? Esses parentes podem ir até eles? Eles são imigrantes, como os japoneses do início do século XX, que esta¬vam trocando definitivamente de vida?
A visão anterior sobre a migração estrangeira era marcada pela visão de atitude definitiva. A quebra da rigidez da migração, hoje, transformou em algo mais temporário, transitório, e isso se deu em função da no¬vas condições de mobilidade do ser humano, um produto da aceleração dos fluxos.
Observe o mapa “As migrações, final do século XX” na página 5 do caderno do aluno. Vamos aproveitar o mapa para exercitar a linguagem cartográfica, chamando a atenção para algumas características dele:
a) a projeção cartográfica: os mapas são planos e a superfície terrestre é curva. Não há meios de se colocar no pla¬no as dimensões - formas, extensão e distância – da superfície terrestre (por exemplo, dos blocos continentais). Por isso, todos os mapas possuem deformações. É importante saber quais são essas deformações. A transposição do espaço curvo para o plano se faz com as chama¬das projeções cartográficas. Por exemplo: nesse mapa, a projeção cartográfica é a de Bertin. Com ela, o autor conseguiu manter a extensão e as formas das terras emersas (fora da água). É uma projeção boa para mostrar que, as relações humanas e seus bens (os fluxos) estão muito intensas;
b) o mapa para ver: onde estão os maiores fluxos de imigrantes, mas isso num bater de olhos? Essa identificação é simples e óbvia. Não haverá necessidade de se con¬sultar a legenda. A comunicação desse mapa é feita por sua imagem em conjunto: é um mapa para ver. As setas indicam direções e esse símbolo é universal. A largura das se¬tas comunica visualmente a maior ou me¬nor quantidade do fluxo. Mas, além das setas, o mapa traz outra informação visual. Os países estão coloridos de cinza ou de tons de rosa (mais fracos e mais fortes). Essas tonalidades de cor significam menor ou maior presença de imigrantes na formação da população dos países. Elas criam uma ordem entre os países nesse aspecto. Por exemplo, na atual formação da população brasileira, há menos imigrantes, proporcionalmente, do que na formação populacional dos EUA;
c) a representação dinâmica e ordenada: por intermédio de linhas (setas), esse tipo de representação mostra o movimento dos fluxos no espaço terrestre de imigrantes no final do século XX. Por mostrar esse movimento, ela é chamada de representação dinâmica, adequada para representar fluxos. E por intermédio do tom de cinza e dos tons de rosa cria-se uma ordem entre países que têm mais e que têm menos imigrantes na composição das suas respectivas populações, por isso, essa dimensão do mapa é chamada de representação ordenada;
d) a variável visual tamanho e variável visual valor: o mapa repre¬senta dois fenômenos:
1) o fluxo migra¬tório e sua dinâmica espacial. Porém, es¬ses fluxos são de diferentes quantidades. Como expressar isso visualmente? Por meio da largura (tamanho) das setas. Essa é a variável visual tamanho, essencial na cartografia para representar a proporcio¬nalidade entre as coisas. Por isso, quando se vê um mapa bem feito, essa proporcio¬nalidade se imprime imediatamente em nossos olhos;
2) a participação na composição da população dos imigrantes segundo classes, fenômeno representado por meio da variável visual valor, onde tonalidades da cor do mais escuro para o mais claro expressam valor da cor. Essa relação é direta para nosso olhar.
Interpretando o mapa, as localidades no planeta que estão recebendo os maiores fluxos migratórios no momento são EUA (bem a frente de todos), Europa Ocidental e Golfo Pérsico. Os principais fluxos, como os do México e da América Central para os EUA, possuem direção sul para norte. Há fluxos também do Sudeste Asiático para os EUA, da África para a Europa e assim por diante. Essa evidência indica fluxos do sul para o norte, que na verdade expressam fluxos dos países pobres para os países ricos. A maior mobilidade dada pelas novas condições espaciais gera outros fluxos inusitados, alguns temporários, como da Índia para Dubai (grande cidade na entrada do Golfo Pérsico). Algumas das áreas que atualmente recebem os maiores de imigrantes, como a América do Norte e a Europa, já têm uma participação expressiva de imigrantes no conjunto de sua população. Algumas outras, como a Austrália, que também estão nessa condição, já não recebem mais fluxos vigorosos de imigrantes. Embora tenhamos ouvido a história de que o Brasil é um país formado por imigrantes, considerando a segunda metade do século XX, deixamos de estar envolvidos de modo importante no conjunto das correntes migratórias internacionais. Isso se revela pela baixa participação dos imigrantes no conjunto da população e pelo volume atual dos fluxos que envolvem nosso território.
Veja os grandes sistemas (movimentos) migratórios contemporâneos, que devem-se à pobreza, a fenô¬menos de proximidade geográfica e a liga¬ções históricas:
- Os sistemas sul para o norte, que drenam a maioria dos imigrantes (normalmente em busca de melhores condições econômicas);
- Refugiados do Norte da África para a França, em função das ações do Magreb (grupo ligado à rede terrorista islâmica liderada pelo saudita Osama bin Laden, na região de Cabília - cidade 70 km a leste de Argel, a capital da Argélia, na África);
- Antigo império das Índias para a Inglaterra;
- Turquia para Alemanha.
- Europa do Leste envia imigrantes, mas também os recebe;
- Índia - Paquistão para países petroleiros do Oriente Médio;
- América do Sul e Central para os EUA.
O mapa de fluxos migratórios nos dá uma visão atual do volume e das direções das correntes migratórias internacionais, assim como a participação dos imigrantes na composição geral das populações dos países.Mas não é possível, por meio dele, concluir sobre a aceleração dos fluxos em relação aos movimentos migra¬tórios ao longo do século XX. Houve expressivo au¬mento do fluxo migratório dos anos 1960 para nossos dias em certas regiões do mundo: EUA, Europa Ocidental etc. em escala planetária entre os Esta¬dos modernos. As direções geográficas desses fluxos, a mudança dessas direções, o volume quantitativo desses movimentos e alteração contemporânea desses volumes implicam numa aceleração dos fluxos e em formas mais acessíveis de administração das distâncias ge¬ográficas (fase descritiva do processo).
Observe o gráfico “Evolução dos efeitos de migrantes, 1910-2000” na página 8 do caderno do aluno. Ele nos mostra apenas uma evolução, no tempo, dos países recebendo imigrantes, mas não nos dá os fluxos, a dinâmica espacial direta e integralmente. O gráfico mostra que houve expressivo aumento do fluxo migratório dos anos 1960 para nossos dias em certas regiões do mundo: EUA, Europa Ocidental, etc. Essas representações visuais de qualidade formam imagens sobre os fluxos migratórios em escala planetária entre os Estados modernos: as direções geográficas desses fluxos; a mudança dessas direções; o volume quantitativo desses movimentos; e alteração contemporânea desses volumes, o que implica numa aceleração dos fluxos e em formas mais acessíveis de administração das distâncias geográficas (fase descritiva do processo).
Problematizacão dos fluxos migratórios internacionais: aceleração e fechamento de fronteiras
É muito comum atualmente falar de ace¬leração da história. Os eventos humanos se precipitam mais velozmente e as transforma¬ções históricas são mais rápidas. Desde que o ser humano se sedentarizou no neolítico, ele nunca se moveu tanto como agora. E esse aumento de mobilidade geográfica está asso¬ciado à aceleração da história. O aumento da mobilidade geográfica de bens, de mercado¬rias e pessoas é a globalização das relações humanas, cujo potencial transformador já demonstrou seu poder, embora muito ainda esteja por acontecer.
Nesse novo cenário, um famoso historia¬dor costuma afirmar: o documento mais im-portante nesse mundo globalizado não é a carteira de identidade e sim o passaporte. E isso nos dirige para a reflexão sobre os fluxos migratórios internacionais contemporâneos. Veja as características das migrações internacionais contemporâneas na página 10 do caderno do aluno.
Duas condições para que as imigrações se acelerem:
1. é mais fácil viajar, pois os meios são mais efi¬cientes e os custos mais baratos e;
2. pode-se fazer experiências temporárias.
Porém, há restrições político-sociais ao processo mi¬gratório. Por isso, o que menos circula no "mundo globalizado" são as pessoas. Mes¬mo assim, as migrações cresceram bastante em comparação com o passado:
a) No início do século XXI, o fechamento das fronteiras fez aumentar o número de clandestinos, o que é difícil de estimar. Por exemplo: seriam uns sete milhões nos EUA;
b) Para os países de origem, as consequên¬cias são por vezes negativas, como por exemplo, no caso da fuga de cérebros (pessoas com grande potencial – por exemplo, sua inteligência – e que acabam usando isso em outro lugar, não no seu país de origem);
c) As consequências são positivas para gru¬pos que permanecem, em razão da remes¬sa de recursos: em 2005 foram 225 bilhões de dólares, o que representa mais que a ajuda oficial direta para o desenvolvimen¬to de alguns países. Por vezes, um imigrante sustenta, em média, dez pessoas.
2. A globalização e as redes geográficas
Quando se fala em globalização, é possí¬vel se entender várias coisas, mas há uma que todos entendem: existe uma presença muito maior do mundo em cada localidade. Isso se expressa pela enorme presença de produtos de diversas partes do mundo e também pelo número elevado de informações sobre o mundo. Parte expressiva do que ocorre, do que se faz, do que se pensa em outras localidades pertence agora a nossa realidade.
Há uma nova organização do espaço geográfico que permite que o mundo esteja aqui e que estejamos no mundo e que a ele pertençamos. Essa nova organização permite que os fluxos se acelerem. E essa nova ordem geográfica é uma ordem de redes geográficas. Palavras-chave na Geografia, como espaço e território, hoje, devem ser acompanhadas por mais uma da mesma importância, a rede geográfica, que é a forma principal dos espa¬ços da globalização.
Os territórios nacionais possuem frontei¬ras, distâncias geográficas, culturais, políticas e econômicas diversas, mas o contato entre suas populações é cada vez mais intenso e isso se dá por meio de um "concorrente" do território: a rede geográfica. A rede geográfica tem o poder de ultrapassar as fronteiras nacionais. Existiria exemplo mais acabado dessa nova realidade do que a rede técnica mundial da in¬ternet?
Veja os mapas “Internautas, 1991-2006” e “Mundo: posse de computadores pessoais no mundo, 2002”, nas páginas 13 e 14, respectivamente. São mapas quantitativos que fazem uso da variável visual tamanho, mapas para ver, pois devido à força expressiva da imagem, qualquer pessoa que os veja, vai perceber que o fenômeno representado é mais relevante nos EUA mesmo sem sa¬ber de que fenômeno se trata. “Internautas” é um mapa ordenado que faz uso da variável visual valor (tonalidades de uma única cor, no caso o marrom). As tonalidades mais escuras expressam um número maior de internautas (usuário individual) em grupos de 100 habitantes (o valor mais elevado é de 87,7 por 100) e as mais claras, o contrário. O mapa é acompanhado por um gráfico evolutivo e quantitativo que, por sua vez, faz uso da variável visual tamanho e mostra o crescimento do número de internautas no período de 1991-2006, indicando também o número de vezes que o volume de internautas foi multiplicado. O mapa “Mundo” tem uma força comunicativa poderosa e ao mesmo tempo revela de forma aguda certos fenômenos geográficos.
Ao examinar essa representação, é interessante ter ao lado um mapa mundi convencional. Para definir o tamanho dos continentes, utilizou-se uma métrica numérica, uma medida que não é a convencional com base em km2. Não foi uma métrica territorial. Essa anamorfose sobre a posse de computadores pes¬soais poderia não comunicar grande coisa se não tivéssemos todos, uma familiaridade muito grande com as formas convencionais do mapa mundi. Mas como a temos, logo percebemos a força comunicativa das defor¬mações.
A linguagem das representações cartográficas foi uma preparação para a exploração cognitiva delas em conjunto. Afinal, elas, cada qual à sua maneira vão dar uma idéia dessa inovação revolucionária na vida humana e na estruturação dos espaços geográficos graças à rede técnica mundial da internet.
Redes geográficas: o espaço de ação das corporações transnacionais
Vamos esclarecer um dos enigmas da globalização e do mundo contemporâneo: a diferença entre termos que parecem ter o mesmo significado. Entre empresa e corporação a diferença é: uma corporação é um grupo que reúne várias empresas de diversos ramos e que concentra muito capital e interesses sob um único controle. Há cor¬porações que têm empresas que atuam no ramo do petróleo, no industrial, no agronegócio, no sistema financeiro e na produção de filmes para cinema e televisão, por exemplo. Isso só explica que, quan¬do os lucros crescem, os grupos econômicos vão diversificando seus negócios e suas localizações, a fim de garantir maiores lucros. A empresa é individual, só atua em um ramo.
Mas o que significa essa diferença entre uma multi nacional e uma trans nacional? Observe o esquema simples da página 18 no caderno do aluno. Observem especialmente a presença e o papel das corporações trans¬nacionais no esquema. Que espaços, de fato, são aqueles em que as corporações baseiam suas atividades? Serão os espaços nacionais (territórios nacionais) convencionais? As corporações econômicas mais poderosas transcendem os espaços nacionais e criam um espaço global com base numa malha de redes técnicas e geográficas.
Um autor importante pode ser citado nes¬se momento. Trata-se do geógrafo brasileiro Milton Santos:
"O interesse das grandes empresas é economizar tempo, aumentando a velocidade da circulação [...] Corporatização do território é a destinação prioritária de recursos para atender as necessida¬des geográficas das grandes empresas."
SANTOS. Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo - razão e emoção. São Paulo: Edusp, 2008. p. 270.
Os fluxos de mercadorias, de serviços, de informações circulando rapidamente pe¬las redes técnicas (transportes e teleco¬municações) no mundo todo permitem o acesso a vastos mercados (e muito mais). As corporações que têm acesso, controle e investimento nessas redes técnicas obtém desse fato uma grande dose de poder econômico.
O prefixo multi significa muitos. Assim, multinacional é uma empresa que opera em vários países, constituída por grandes aglomerados industriais e financeiros. E transnacional? Transcender significa ultrapassar, ser superior. Assim, transnacional é uma empresa que ultrapassa os limites do país em que tem sua sede: está sediada num país e opera a produção ou parte dela em outros. Os dois conceitos se completam: grandes empresas que estão sediadas nos países desenvolvidos e operam ou controlam a produção nos países subdesenvolvidos. O termo global (globalização) refere-se a um processo em andamento, pois na verda¬de há muitas áreas ainda fora desse processo (as regiões em branco, os clarões), que sofrem uma “marginalização” em relação à globalização. Essas áreas "fora do eixo" da globalização foram designados como os deserdados da ordem mundial, áreas onde justamente registram-se eventos trágicos, guerras civis e conflitos regionais, tema estudado anteriormente.
Um exemplo de funcionamento de uma rede geográfica em outro cenário, muito útil para compreender o funcionamento das redes na escala mundial, é a cidade de São Paulo. Essa me¬trópole sofre desde os anos 1980 uma profunda reestruturação no seu espaço geográfico: seu território está "invadido" por redes geográficas que se estruturam do seguinte modo:
• Pontos: habitações em condomínio fechado ↔ centros administrativos isolados também em formato de condomínio fechado ↔ centros comerciais (shopping centers, hipermercados) fechados e protegidos ↔ outras instalações do tipo (hotéis, resorts urbanos).
• Linhas: vias expressas, avenidas, cuja circu¬lação é predominantemente automobilística.
Os usuários dessas redes geográficas pro¬curam concentrar o fundamental de suas vi-das em seu interior: residência, abastecimento, trabalho, estudos, lazer etc. E se possível, rara¬mente saem da rede, evitando assim o território pleno da cidade. Pesquisas mostram o número impressionante¬mente alto de habitantes da cidade que jamais foram ao seu centro histórico, jamais usaram transporte coletivo e jamais andaram a pé.
Há um custo financeiro para viver nessa rede protegida e ele não é baixo, o que resulta numa "seleção social” e diminui as trocas e as relações entre a população da cidade, em vista dessa separação (segregação?) sofisticada, na sua geografia. As trocas, as relações sociais desses usuários e construto¬res de redes se dão quase que somente entre eles. E o que isso tem a ver com as redes geográficas de escala mundial, construídas e alimentadas pelas corporações transnacionais?
Mais de 50% da circulação de capitais, de bens de produção, de serviços, de tecnologia que as corporações transnacionais põem em movimento ocorrem internamente às suas pró¬prias redes. Outro ângulo dessa lógica: 30% das exportações mundiais são trocas no interior das redes das corporações. É uma movimentação econômica que não se irradia para os territó¬rios dos países onde elas não instaladas.
Essa radiografia geográfica da estruturação transnacional das corporações revela:
1. a im¬portância das redes geográficas na globalização que se constrói;
2. um pouco das estratégias e do poder dessas grandes empresas.
Muitos da¬dos econômicos podem ser alinhavados para dimensionar mais amplamente a ação das corporações, mas eles poderão ganhar mais signi¬ficado se sua lógica espacial for considerada.
3. Os grandes fluxos do comércio mundial e a construção de uma malha global
O comércio é por definição uma forma de relação humana que implica colocar em contato grupos sociais diferentes. Na origem da história humana para um grupo A interessava obter de outros grupos aquilo que não se con¬seguia produzir, aquilo que somente outros grupos possuíam. Esse gênero de relação exigia estender relações sobre espaços mais amplos, obrigava a abrir caminhos, rotas e construir portos, estimulava a criação de novos meios de transporte e impunha a criação de estruturas para os comerciantes. Como se vê, o comércio é uma atividade humana produtora de novos es¬paços humanos e uma atividade que ensinou o ser humano a lidar com a distância geográfica.
No mundo contemporâneo tudo isso in¬tensificou extraordinariamente. Com os no¬vos meios disponíveis, as atividades comer¬ciais aumentaram o poder de uma das forças propulsoras da "fabricação" de novos espa¬ços e do aperfeiçoamento dos meios de supe-ração da distância entre as realidades geográ¬ficas.
Vamos pensar nas marcas de produtos comerciais que frequentam nosso dia-a-dia. Qual a origem nacional da marca? Numa série de produtos (roupas, calçados e eletrônicos, por exemplo) onde é a localidade da fabrica¬ção? São duas coisas diferentes: um produto pode ter uma marca de origem americana e ser produzido na China. Uma marca pode ser francesa e seu produto pode ser, ao menos em parte, produzido no Brasil.
Isso revela a complexidade das relações atuais, num mundo globaliza¬do, embora uma relação comercial, ao pé da letra, resuma-se à saída do local de pro¬dução (ou ponto de venda) até o ponto do consumo.
Os fluxos de produtos que chegam até nós vêm do mundo, de um sistema produtivo e comercial que se organiza na escala mundial, não somente dos nossos vizinhos, do mundo ocidental ou do extremo oriente.
O comércio como acelerador dos fluxos; aceleração dos fluxos intensificando o comércio
O mundo contemporâneo é complexo. Isso não quer dizer complicado, como é comum se pensar. Complexo significa que cada realidade isolada é sempre produto do conjunto da realidade total, ou das diversas realidades em relação. Durante os últimos 50 anos as exportações mundiais aumentaram em volume, nove vezes mais rápido que a produção mundial. Produz-se mais, mas se comercializa entre países muito mais ainda. Quer dizer que boa parte da produção antigamente circulava mais no interior dos pró¬prios países onde eram produzidas; hoje a produção circula muito mais numa escala geográfica mais ampla: circula o mundo.
O comércio não cresceu por si só, porque tem mais gente com¬prando bens. O comércio cresceu porque uma série de eventos e transformações cruzadas nes¬se nosso mundo propiciaram essa condição (e que já estudamos): a aceleração dos fluxos, as redes técnicas, a força das transnacionais e suas redes geográficas, a geopolítica, a ordem mundial e a ação das potências, que permitiram nesses últimos 50 anos que os mercados nacionais nada mais fossem que "seções" de um único e imenso mercado mundial. Outros exemplos de eventos que propiciaram o crescimento do comércio: desenvolvimentos tecnológicos, a multiplicação dos meios de compra e informação sobre os produtos, o afrouxamento das fronteiras dos Estados nacionais territoriais etc.
A imagem dos fluxos comerciais no mundo contemporâneo é forte. Nunca o planeta pareceu tão pequeno, tal a dimensão dos fluxos e as distâncias que eles percorrem. Longos trajetos, outrora feitos apenas por aventureiros, atualmente são as principais rotas comerciais do mundo. Rotas oceânicas percorridas por navios que ancoram em portos, abarrotados e congestionados de mercadorias, e rotas aéreas que chegam em pontos antes inalcançáveis resultam da busca desenfreada por novos mercados, por novos consumidores.
O comércio, obviamente, não ocorre somente na escala mundial, isto é, na relação entre continentes e países diferentes. Os fluxos ocorrem internamente dentro de uma região, numa escala inferior: produção no país/continente e consumo no país/continente.
O grande desafio da cartografia contemporânea não é localizar com precisão fenômenos geográficos, pois isso já está pronto e atualizado pelas imagens de satélite; o grande desafio está em conseguir expressar visualmente as relações espaciais que se desenvolvem num mundo cada vez mais complexo, ou seja, a utilização da linguagem. Para se produzir um mapa, antes de tudo, é preciso ter acesso às informações, à base de dados que será objeto da representação. Na cartografia temática contemporânea, há uma tendência em se preferir as projeções do tipo da de Buckminster Fuller ou a de Bertin para a representação de fluxos comerciais (lembre-se do mapa do tema 5, dos fluxos migratórios). Elas aproximam os blocos continentais, eliminam as imensas distâncias oceânicas e dão uma idéia mais expressiva e real do que são os fluxos no mundo contemporâneo. Projeções como a de Peters ou a de Mercator têm uma proeminência muito grande dos oceanos e expressam visualmente distâncias longuíssimas entre o extremo da Ásia e as Américas, por exemplo. A seta é compreendida, universalmente, como símbolo gráfico adequado para representara direção dos fluxos, pois permite expressar quantidade com a manipulação de seu tamanho (largura). Setas largas estarão representando fluxos de maior quantidade; mais estreitas, o contrário. Definir símbolos de comunicação não dá margem a diferentes interpretações. O que se vê tem sempre que ter sempre um único significado. Os blocos continentais no fundo do mapa devem ter uma única cor para todos. Uma cor leve e neutra para não ofuscar as setas. Define-se uma única cor para as setas e elas não podem se sobrepor umas às outras. Se fossemos montar um mapa com o tema “Comércio mundial de mercadorias”, constariam dados do comércio que poderiam ser representados cartograficamente em quadrados ou círculos (quanto maior, significa maior o volume negociado) ou por setas, e os números poderiamos colocar em uma legenda (resultando em uma representação quantitativa, pois apresenta números).
Hoje, os fluxos mais importantes no comércio mundial de mercadorias estão entre a Ásia e a América do Norte, entre a Ásia e a Europa Ocidental e entre a América do Norte e a Europa Ocidental. O fluxo da Ásia para a América do Norte é maior, mesmo com a imensa distância oceânica (que foi superada por conta da globalização, que encurtou as distâncias, realidade no mundo contemporâneo). O fluxo gira em torno da América do Norte, Europa e Ásia, mas os maiores fluxos ocorrem entre os países desenvolvidos para os subdesenvolvidos (tanto saída como entrada de mercadorias). Já os menores fluxos estão entre os próprios países subdesenvolvidos (tanto saída como entrada de mercadorias).
A Ásia aumentou significamente suas exportações, principalmente para os EUA e Europa e se consolidou como um grande pólo exportador. Muitas transnacionais, que normalmente tem sede nos EUA e Europa, começaram a produzir nos países deste continente (China, por exemplo), para baratear a produção. E a mão-de-obra é farta e barata, aumentando a produção em grande escala e negociação de seus produtos por preços mais baixos. Os EUA são o maior comprador nesse tipo de relação e isso é uma participação fundamental, pois esse país é um grande mercado. Seu papel, como exportador, é um pouco menor, o que contraria uma visão de país forte (aquele que mais vende e que menos compra). Mas essa visão não corresponde ao modo como a economia global se organiza atualmente. Nesse modelo, importação e exportação não têm o mesmo peso de épocas anteriores. Por isso, os EUA não perderam sua importância no comércio internacional. O peso do comércio em escala regional (no mesmo continente, país ou região) ainda é grande, mas o comércio entre os continentes, ou seja, escala global (inter-região) está crescendo cada vez mais.
4. Regulamentar os fluxos econômicos na escala mundial: é possível encontrar um bem comum?
A mobilidade humana ampliou-se, não há dúvidas. Na escala mundial as relações da globalização articulam uma malha de redes geográficas, alimentadas por redes técnicas, que se constituem numa nova configuração geográfica, acelerando impressionantemente os fluxos de bens econômicos e de pessoas. É certo que os bens econômicos (mercadorias, capitais, serviços, informações) circulam com muito mais desenvoltura nessa dimensão glo¬bal do que os seres humanos. Mas também há constrangimentos na circulação dos fluxos econômicos. Aliás, mais que constrangimentos: há conflitos.
Vale relembrar uma razão: a ordem mun¬dial existente se estrutura no interior da relação entre os países. No entanto, essas relações são desiguais:
1. alguns países são potências que atuam agressivamente;
2. agora há tam¬bém corporações privadas bem mais pode¬rosas que muitos países;
3. de modo geral, os fortes e os fracos nessa ordem só têm uma referência ao relacionar-se, que são seus pró¬prios interesses. E sem dúvida isso vai signi¬ficar problemas para a livre circulação dos bens econômicos; aliás, essa livre circulação dos bens econômicos vai significar proble¬mas para cada país.
A regulamentação dos fluxos econômicos mundiais é objeto de muitos debates, pois há muitas críticas sobre a globalização que libe¬raria forças que, em tese, causariam prejuízos às economias nacionais. Os Estados nacionais territoriais - inclusive os países mais ricos, quando percebem seus interesses nacionais contrariados, clamam por regras. É no inte¬rior desse quadro que se vêm estruturando organizações internacionais que procuram regulamentar os fluxos econômicos.
Do GATT à OMC: um percurso espinhoso que se dirige ao desconhecido
Em 1948, período de esgotamento da Segun¬da Guerra Mundial, o cenário mundial (não era bem a escala mundial, mas sim Europa ocidental e EUA) favorece a busca da eliminação de qual¬quer tipo de conflito. Afinal, a tragédia estava vertendo sangue naquele momento e os custos para remover as ruínas e erguer um novo siste¬ma econômico se anunciavam astronômicos.
Para se dinamizarem, as economias depen¬diam de relações econômicas para além da escala nacional. Dependiam da remoção dos protecionismos, uma chave importante para a interpretação dos conflitos e das proposições para resolver a questão dos fluxos econômicos internacionais.
Leia atentamente o texto informativo sobre os organismos econômicos internacionais na página 34 do caderno do aluno. Nele encontra-se um panorama sinté¬tico dos caminhos percorridos nos últimos 50 anos para se estabelecer meios e regras na or¬dem dos fluxos econômicos mundiais.
Num mun¬do de menores desigualdades econômicas - mundo que não existe – os países buscam um bem comum através de acordos, tratados, san¬ções, punições e protecionismos. Os países se movem pela lógica geopolítica. As referências e os objetivos a serem alcançados por cada país são os interesses de cada um. Agindo assim, não é mais fácil chegar à guerra do que à har¬monia?
Algo espe¬cífico, que une as relações econômicas e a Geopolítica, se encontra no texto e deve ser notado para desenvolver-se uma linha de raciocínio: o acordo comercial (GATT) foi concebido para promover a paz e combater o protecionismo, que é o "promotor da guerra". Para o horror dos economistas, a vida real, nesse caso, invade a lógica econômica. O que é o protecionismo comercial? E por que isso causaria guerra? Se proteger pode causar a guerra, nesse caso, a proteção ganha o sentido de agressão. Não é interessante? Vale raciocinar so¬bre isso, refletindo sobre o caso atual que o texto destaca no seu final: os EUA e a União Européia praticam o protecionismo em relação à sua agricultura, pois temem a cir-culação mais livre dos produtos agrícolas dos países emergentes e pobres, o contrário da filosofia que estaria na base da fundação da OMC.
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PROFESSOR MARIO
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segunda-feira, 2 de maio de 2011
A REVOLUÇÃO DA INFORMAÇÃO E AS CIDADES 2ª A
INFORMAÇÃO, CIDADE E CONHECIMENTO:
POR UMA ABORDAGEM DO ESPAÇO URBANO
SILVIO JOSÉ CONCEIÇÃO*
gropius@uol.com.br
Trata-se de uma abordagem informacional das redes urbanas na construção do conhecimento na/da cidade, passando pela apropriação/apreensão do espaço através de cenários virtuais-informacionais, instituídos num certo lugar, com intenções e desejos variados, decodificados e reapreendidos num lugar outro, (re)significados a partir de uma certa unidade espaço-temporal, cada vez mais diluída e tênue pelo recurso da própria velocidade, e que aqui nos parecem vindas do lugar algum, produzidas por ninguém, e sem qualquer intencionalidade presente em sua (di)fusão. Propomos alguns mergulhos neste universo da informação-matéria-imaginação, abordando a materialidade da informação-imaginação, a imaginação da matéria-informação, e também a informatiCidade da matéria-imaginação. Queremos mergulhar nas tensões desta convivência múltipla, na diversidade e complexidade da coisa-sendo (constituinte e instituinte de relações) e também na multirreferencialidade do espaço, para uma compreensão da vida na e da cidade, na construção do conhecimento, do saber e da informação na rede urbana. Este ensaio propõe uma visão em rede do objeto cidade a partir de reflexões acerca dos fluxos de informação ger(i)(a)dos no espaço urbano como possibilidade para a construção do conhecimento. Observamos os vários percursos da informação e do conhecimento na cidade sob o ponto de vista dos seus aspectos físicos e relacionais como instituidores de redes informacionais.
Palavras-chave: cidade, informação, conhecimento, redes de informação, espaço urbano.
INFORMAÇÃO, CIDADE E CONHECIMENTO
Embrenhei-me num deserto de areia: avançava afundando entre dunas de certa forma sempre diversas umas das outras e no entanto quase iguais. Conforme o ponto do qual fossem olhadas, as cristas das dunas pareciam relevos de corpos estendidos. Aqui parecia modelar-se um braço inclinado sobre um terno seio, com a palma estirando-se sobre uma face reclinada; além parecia surgir de um jovem pé de airosos artelhos. Parado a observar aquelas possíveis analogias, deixei transcorrer um bom minuto antes de me dar conta de que sob meus olhos não tinha um crinal de areia, mas o objeto de minha perseguição
Italo Calvino
Cosmicômicas, 1992.
As abordagens sobre o espaço urbano são realizadas, em grande parte, com enfoque nos fatores físicos, arquitetônicos ou formais da cidade, ou nos fatores econômicos, sociais e culturais individualmente, havendo quase sempre a mutilação de alguns fatores importantes para a compreensão urbana, como por exemplo, os aspectos relacionais entre os elementos/fragmentos urbanos. O que pretendo com este ensaio é a construção de percursos que articulem as redes urbanas e suas questões (Castells), os espaços de fluxos de Milton Santos e a emergência em sistemas auto-organizados de Steven Johnson.
Pleiteamos para os estudos urbanos, em conjunto com as teorias da complexidade, a compreensão dos fenômenos do espaço-cidade a partir (também) das relações estabelecidas e estabelecentes da produção do conhecimento e da informação. Entendemos (também) a cidade como espaço de fluxos, e não apenas em sua configuração físico-espacial, ela é produto e produtora de complexidades que se apresentam nos indivíduos/ grupos e nas articulações/ produções das atividades humanas, onde configuram e constróem o espaço. A cidade aqui é entendida na diversidade de sua constituição, nos movimentos e dinâmicas dos seus elementos/ artefatos formadores, com atenção especial para as relações criadas e estabelecidas entre eles.
O espaço deve ser considerado como um conjunto de relações realizadas através de funções e de formas que se apresentam como testemunho de uma história escrita por processos do passado e do presente. Isto é, o espaço se define como um conjunto de formas representativas de relações sociais do passado e do presente e por uma estrutura representada por relações sociais que estão acontecendo diante dos nossos olhos e que se manifestam através de processos e funções. O espaço é, então, um verdadeiro campo de forças cuja aceleração é desigual. Daí porque a evolução espacial não se faz de forma idêntica em todos os lugares.
Mais uma vez aqui a noção de relatividade produzida por Einstein aparece como fundamental porque substitui o conceito de matéria pelo conceito de campo, o que supõe a existência de relações entre a matéria e a energia. Numa comparação talvez grosseira, as formas seriam comparáveis à matéria e a energia à dinâmica social. (Santos, 2002a. p.153)
CIDADES E REDES
Tratar a cidade num sistema em rede é uma forma de potencializar seus espaços e aqueles gerados a partir de suas articulações. E para isso é importante o entendimento das lógicas de funcionamento que conectam várias atividades/ações/objetos em seus fluxos. Redes de dados, redes de informações, redes de tráfego, redes de produção de conhecimento, redes de comunicação. São várias, e não basta listá-las. Mais importante é tentar conhecer seus princípios. Steven Johnson fala de sistemas auto-organizados em comunidades de formigas, em redes de softwares, no cérebro, e também em cidades. Neste último caso ele retoma algumas considerações de Jane Jacobs, que em seu livro Morte e vida de grandes cidades (1961) fala dos ‘olhos das ruas’, e da apropriação do espaço pelos nova-iorquinos. Os estudos sobre as comunidades de formigas ‘destruíram’ o mito da supremacia da ‘formiga-rainha’. Não existe a formiga-líder, e mesmo assim, o sistema funciona. Johnson ainda cita algumas propostas de softwares que tentam abrigar em sua arquitetura, estruturas auto-organizadas, ao que ele chama de softwares inteligentes, e que a partir do uso e dos conceitos construídos pelos usuários de forma não hierárquica o sistema vai ajustando-se a cada grupo de usuários, que por sua vez, interagem em rede.
O mesmo acontece com o espaço urbano, que à revelia de planos diretores de ocupação do solo, criam espaços especializados em alguns tipos de serviço/atividade ou grupo social. São bairros ou regiões da cidade que concentram empresas de comércio de auto-peças, de papelarias, roupas masculinas, roupas infantis, material esportivo, e assim por diante. Ou seja, existe uma organização que pulsa fora dos sistemas hierárquicos, e isto é uma lição da cidade para as abordagens urbanas.
No nosso caso, o termo abordagem pode ser entendido no sentido dado pela ciência: tratar de, versar sobre algum tema, como também em sentido originário, que vem de borda, estar na borda de algo, ou ainda no sentido de aproximação de uma embarcação para tomá-la de assalto. Estamos tentando uma aproximação com as embarcações da informação e do conhecimento para, nestes cenários e territórios, tratarmos das questões urbanas, que muito têm dos fluxos de informação e conhecimento.
Conhecimento e informação entendidos no sentido da apreensão do espaço e do conhecimento gerado a partir destas dinâmicas, como também de outros modos de produção de conhecimento que acontecem nos espaços urbanos. É importante atentarmos para o espaço urbano também nos seus aspectos físicos, pois é nele que as práticas urbanas acontecem, reconstruindo os sentidos de espaço, como também as lógicas das próprias práticas. São necessárias algumas aberturas nos conceitos de espaço-urbano para que este seja entendido nos aspectos físicos, nas práticas e produções cotidianas, e também nas dinâmicas das práticas nos espaços e dos espaços de práticas.
INFORMAÇÃO, CONHECIMENTO E REDES
Os caminhos da informação e do conhecimento, como também os caminhos na cidade podem parecer aleatórios, produzidos por ninguém, ou definidos segundo o acaso, ou o seu inverso – imposto pelos detentores/operadores do poder da informação e do conhecimento. Mas creio que eles são em grande parte, fruto dos desejos e aspirações de grupos-indivíduos, mesmo que originalmente não tenham sido os ‘pais’ dos ‘modos urbanos’, eles modificam e constróem o sistema à medida em que se apropriam dos espaços, lugares e lógicas. É preciso invocar e compreender os sistemas auto organizados estudados por Prigogine, tomá-los de assalto (e por que não?) para que então possamos estabelecer conexões entre os sistemas de fluxos de informação, conhecimento e pessoas na rede urbana.
Evocamos a informação, o conhecimento e a cidade com o intuito de articular o espaço urbano em suas várias dimensões e referências. Os espaços de fluxos, a circulação da informação, a construção do conhecimento e a capacidade de múltiplas dinâmicas do espaço urbano e da cidade são possibilidades de ligação entre estes campos para a compreensão do que podemos entender como matéria, imaginação e informação. A velocidade da comunicação, a grande capacidade de disseminação da informação pelos meios eletrônicos e de alta tecnologia podem levar aos ‘usuários’, a sensação de não-identidade das fontes da informação. Enquanto em outros meios, poderíamos identificar os autores e produtores da informação, o que observamos hoje é a difusão de páginas na rede mundial que propagam informações aparentemente despersonalizadas. Não que haja algum problema com a disseminação impessoal, apenas não creio que seja verídica esta possibilidade, pois nós produzimos, disseminamos e consumimos a informação, e ao fazermos qualquer um destes ‘passos’, a transformamos.
A questão fundamental aqui é o funcionamento dos sistemas em rede - redes de informação/ pensamento, através do imaginário instituinte da sociedade como aponta Castoriadis, ou da auto-organização dos sistemas emergentes de Steven Johnson.
Neste sentido, é importante a compreensão dos sentidos que articulam questões aparentemente tão distantes. Este, é já um exercício em rede. A propagação ou disseminação da informação na internet, como também nas cidades, acontecem pelas redes relacionais de informação. Redes estas, formadas pelos indivíduos e instituições na produção e espraiamento do objeto-informação. Por outro lado, temos a cidade e sua organização espacial que está ligada às questões econômicas, sociais, sociais e históricas, mas que funcionam como se houvesse algum maestro regendo a orquestra, mesmo que em determinados momentos ela desafine, perca o tom ou compasso. Este maestro não existe. A força da organização é a convivência negociada e ao mesmo tempo, tensional, dos atores sociais, na definição dos espaços de convivência. Podemos pensar numa espécie de ‘consciência’ social, que surge das vivências individuais e da aproximação com o ‘outro’ para a criação de ‘novos’ modos de vida e apreensão social. Novo, no sentido das modificações/ construções e transformações durante o processo de aprendizagem do espaço.
Na organização da cidade, Johnson fala de emergência, no ‘caminhar’ da sociedade, Castoriadis trata do imaginário instituinte, e Castells sobre o espaço urbano, trata da sociedade em rede. Observo nos ‘sistemas’ adotados e pesquisados por estes autores alguma coisa em comum, que é a produção de informação na cidade-sociedade e também de criação/produção de conhecimento na/da sociedade sobre/com o espaço urbano. Informação e conhecimento como articulação dos sistemas emergentes de auto-organização.
Há objetivos explícitos para uma cidade – razões de ser que normalmente seus cidadãos conhecem, decorrentes da proteção proporcionada pela cidade murada ou do comércio livre nos mercados. No entanto, as cidades também têm um objetivo latente: funcionar como mecanismos de armazenamento e recuperação de informações. As cidades criaram interfaces amigáveis milhares de anos antes que alguém sonhasse com computadores digitais. As cidades juntam mentes semelhantes e as colocam em escaninhos conexo. Sapateiros junto de outros sapateiros e fabricantes de botões perto de outros fabricantes de botões. Idéias e mercadorias fluem rapidamente nesses conjuntos, levando à produtiva polinização cruzada, garantindo que boas idéias não morram em áreas rurais isoladas. (Johnson, 2003. p.79)
Johnson, através da ‘emergência’ faz conexões da dinâmica de rede no funcionamento do cérebro, na organização das formigas, nos sistemas urbanos e nos softwares. Esta construção-contribuição permite vislumbrar algumas ‘viagens’ da informação por estes sistemas, e ainda a possibilidade de um conhecimento construente e coletivo. Podemos observar que os sistemas funcionam de modo articulado, e não estanque. Percebe-se um componente coletivo, ou imaginário instituinte na cidade, como também no próprio indivíduo-cérebro. São redes e grupos que trabalham articulando-se com outras redes e grupos.
Sob todos os aspectos, estamos no meio de outra revolução tecnológica – a idade da informação, uma época de conexões quase infinitas. Se o armazenamento e a recuperação de informação eram objetivo latente na explosão urbana da Idade Média, eles são os propósitos evidentes da revolução digital. Isso nos leva à seguinte questão: a Web também está aprendendo? Se é fato que as cidades podem gerar inteligência emergente – um macrocomportamento provocado por milhões de micromotivos -, que forma de nível mais alto está sendo gerada entre os roteadores e os cabos de fibra ótica da Internet? (idem. p.83)
Trata-se de auto-organização. As possibilidades do empreendimento da circulação de informação e construção de conhecimento tem seu potencial ampliado pelas redes informacionais de comunicação. Steven Johnson sugere para um melhor entendimento dos sistemas, a substituição das formigas por neurônios e do feromônio (deixado e seguido pelas formigas) por neurotransmissores como analogia da aprendizagem em formigas, no cérebro e quem sabe na Web, através da conexão dos vários cérebros em rede, o que permitiria ao sistema virtual, um comportamento de vizinhança, embora existam deslocamentos/ distanciamentos espaciais.
O que parece interessante é a capacidade de nossas mentes do reconhecimento da mente do outro; as formigas, pelo rastro de feromônio acumulam alimentos, ou limpam os detritos; as cidades aprendem as funções pela história de suas populações. Acho que isto poderia ser a ‘grande consciência’ que abrange os micromotivos e microcomportamentos ou a instituição imaginária da sociedade, na qual Castoriadis trata da imaginação, relacionando este termo com a imagem, em seu sentido mais geral e também com a idéia de criação:
[...] Não cria “imagens” no sentido habitual (ainda que as crie, também: marcos totêmicos, bandeiras, brasões, etc.), porém formas, que podem ser imagens no sentido geral (assim, falamos de “imagem acústica” de uma palavra), mas que são, de modo central, significações e instituições, as duas sempre solidárias. O termo ‘imaginário’ é aqui um substantivo, e se refere diretamente a uma substância: não é um adjetivo denotando uma qualidade. (1999. p.242)
Assim, trata-se de uma forma de conexão entre a imaginação e a matéria em sua ‘substância’. A imaginação na sociedade, como possibilidade de organização das ações e pensamentos conjuntos, tem implicações materiais e informacionais. A matéria, a imaginação e a informação andam juntas, e diria mais: não podemos facilmente separá-las. Conceber a informação sem o caráter de criação que imaginação pode dar, ou da materialidade da substância fluida é difícil: seria mutilação de sentidos e propósitos. Quero com isso, tratar das articulações entre estas grandezas, se assim podemos chamá-las, para que o pensamento sobre as práticas cotidianas no espaço urbano (assim, como o da circulação da informação pelas várias mídias) não seja a interpretação individualizada ou puramente hierárquica. Existe um componente coletivo e social que dão múltiplos sentidos, quer sobre o território, quer nas vias de transporte da informação. A informação toma o caráter de objeto e imaginação, produtora de diversidades, presente na organização sócio-espacial.
ESPAÇO DE FLUXOS
Milton Santos afirma que o espaço não é estático ou estanque, é fluido, ambiente de fluxos e velocidades:
Hoje, vivemos um mundo da rapidez e da fluidez. Trata-se de uma fluidez virtual, possível pela presença dos novos sistemas técnicos, sobretudo os sistemas da informação, e de uma fluidez efetiva, realizada quando essa fluidez potencial é utilizada no exercício da ação, pelas empresas e instituições hegemônicas. A fluidez potencial aparece no imaginário e na ideologia como se fosse um bem comum, uma fluidez para todos, quando, na verdade, apenas alguns agentes têm a possibilidade de utilizá-la, tornando-se, desse modo, os detentores efetivos da velocidade. O exercício desta é, pois, o resultado das disponibilidades materiais e técnicas existentes e das possibilidades de ação.(2002b. p.83)
O espaço, através da fluidez e rapidez adquire sentidos outros que o diferem do caráter determinista de outrora; o espaço dos fluxos e os fluxos do espaço estão mais próximos da vida contemporânea, onde a informação e o conhecimento transformam-se em valores expressivos da sociedade de consumo e de massas. Não devemos esquecer a advertência de Santos: a quem serve esta velocidade? Quem tem o domínio sobre ela? Existe aqui contradição que desejo explorar, sem no entanto, pensar ser possível esgotar a discussão. Existem movimentos e dinâmicas da informação e do conhecimento, existem os sistemas financeiros e econômicos hegemônicos que detém o poder, e portanto a informação e o conhecimento, e ainda podemos identificar na sociedade, os indivíduos/ grupos que imprimem suas marcas no tempo-espaço de suas vivências, construindo conhecimentos e saberes através das informações conquistadas/ processadas/ construídas. Como podemos falar de sistemas auto-organizados emergentes na cidade e na sociedade, se ainda os dilemas urbanos são mediados pelo capital e pelo poder financeiro e econômico? Se descolarmos a apreensão do espaço, quem sabe não poderemos entender os fenômenos de emergência e ‘subordinação’? Mas isto não seria uma mutilação do estudo e da abordagem? Não é disso que estamos fugindo quando evocamos a auto-organização e emergência em sistemas complexos? Não podemos cair na armadilha da simplificação, como forma única da compreensão destes sistemas-complexus.
Diante das dúvidas e até mesmo para permanecer com elas, é interessante que a abordagem possa abrigar a diferença e opacidade, o complexus e as contradições. Nesta via, a multirreferencialidade nos ajuda a caminhar por este emaranhado de informações, conceitos, conhecimentos, espaços, fluxos e cidade. Se pudermos dizer que a multirreferencialidade tem princípios, diríamos que são o da opacidade do objeto e dos múltiplos olhares, não como negação e mutilação de um ante o outro, mas como forma de distinguir e explorar visões outras, que um olhar hierárquico não pode admitir. A nitidez dos contornos e arestas não se apresenta pois, a cada olhar, uma nova relação se estabelece.
Com estas observações vamos tentar encontrar caminhos para o drama exposto acima. Acredito que as instituições hegemônicas exercem seu poder de pressão sobre a sociedade como um todo, mas esta sociedade não absorve os princípios ingenuamente, existe uma retro-alimentação do sistema que modifica a estrutura de poder por meio das micro-apreensões de cada uma das atividades ou a cada re-construção do conhecimento. Esta dinâmica está presente tanto nos softwares inteligentes, nas cidades ou mesmo no cérebro, a diferença é de escala. Mas a proximidade entre os constituintes do sistema permite a criação de uma ‘consciência’ social mais geral.
Os fluxos nas redes geram outros fluxos a partir de suas próprias dinâmicas. O sistema não se resolve, ele terá sempre a dissipação de energia, o que é fundamental para a sua constante instabilidade e mudança.
Acerca das estruturas dissipativas, podemos falar de “auto-organização”. Mesmo que conheçamos o estado inicial do sistema, o processo de que ele é sede e as condições nos limites, não podemos prever qual dos regimes de atividade esse sistema vai escolher. O alcance desta observação impressionou-me. Não podem as bifurcações ajudar-nos a entender a inovação e a diversificação em áreas outras que a física ou a química? Como resistir à tentação de aplicar essas noções a problemas da esfera da biologia, da sociologia ou da economia?[...] (Prigogine, 1996. p.74)
A aplicação de princípios nascidos em outros ramos da ciência é de fato irresistível, o que leva para as possíveis conexões com a natureza. Uma ciência dá suas contribuições, que são apreendidas e ressignificadas por outras, e a partir daí elas começam a ganhar vida, e podem voltar ao seu nascedouro, já modificadas e transformadas, como num processo de contaminação e combate. Dissipação, auto-organização e emergência, princípios para a compreensão do espaço urbano, e neste sentido, a multirreferencialidade muito tem a contribuir:
A multirreferencialidade (...) parte da idéia de que o objeto é efetivamente suscetível de tratamentos múltiplos, em função não só de suas características, mas também dos modos de interrogação dos atores (sobre esse objeto) e que esta multiplicidade é radical. Cada abordagem, cada referente é como se fosse o limite do outro... É isso, pois que faz a especificidade da nultirreferencialidade, e não a complementaridade, a atividade, a pretensão de uma transparência pressuposta, e de um domínio possível (deste objeto), mas a afirmação de uma vazio necessário, da impossibilidade de (se alcançar) um ponto de vista superior a todos (os demais) pontos de vista e a afirmação da limitação recíproca dos diversos campos disciplinares. Há (pois) diversos campos de referência possíveis, nenhum esgota o objeto, nenhum pode, sobretudo, ser reduzido a outro, ou nenhum pode ser explicativo do outro campo. (Berger, apud Fróes Burnham. 1998:46)
A multirreferencialidade pode ser aqui uma base para as abordagens urbanas, e mais uma vez tomamos de assalto um conceito ao nosso favor. O que pretende-se com isso é a criação de possibilidades para os estudos dos espaços urbanos através de uma ciência que evite a mutilação do objeto. Ao chamar a atenção dos aspectos materiais, informacionais e imaginários dos processos urbanos e sociais, quero apenas indicar que o objeto modifica-se e transforma-se em função de nossa aproximação ou de nosso distanciamento. É como nas imagens evocadas por Italo Calvino (no início do texto) para descrever as dunas e as outras conexões estabelecidas a partir de sua forma. Assim, o olhar não vê apenas a areia que substancialmente conforma as dunas, mas faz dela matéria-prima para sua criação, e portanto, com o uso da imaginação, reconstrói e cria espaços e conceitos díspares em relação à matéria original.
ABORDAGEM URBANA
Penso que alguns caminhos foram traçados em busca de possibilidades outras das abordagens urbanas. Não basta que cada ramo da ciência preocupe-se com a ‘fatia’ do mundo que lhes cabe. É preciso fazer com que as ciências interajam em suas pesquisas, só assim, poderemos caminhar para uma maior apropriação do espaço de nossas vidas. As ligações e articulações entre os objetos existem, é preciso não cortá-las. As ciências podem articular seus saberes e entender a sociedade como construção contínua e coletiva. É uma questão de processo, mais que qualquer outra coisa. Processo contínuo, sem uniformidade, com discrepâncias e contradições, onde as múltiplas dinâmicas procuram cada uma, os seus espaços e territórios.
E onde está o conhecimento, a informação e a cidade? O que tem isso com aquilo? Onde está o espaço urbano? E as redes informacionais? E a auto-organização? Essas perguntas eu continuo a fazer e não obtenho respostas. Talvez porque elas não sejam bem formuladas, pois dizem que uma questão bem formulada, certamente obterá êxito em sua busca. E no caso de termos respostas, para elas, perguntas também serão encontradas. Não estou certo, nem convencido de tudo isto. Mas uma coisa parece certa: para uma abordagem consistente do espaço urbano, não basta um estudo minucioso de suas ‘partes’. São necessários diálogos com a questão urbana, e para isso, as pessoas, as ruas, o capital, os lugares e as atividades precisam ‘falar’, precisam de expressão e de espaço para a comunicação nas abordagens e pesquisas. Aqui o conhecimento, a informação e a imaginação têm papel fundamental nas dialogias das dinâmicas urbanas.
Esta questão, pode em princípio parecer simples, pode até já ser uma prática corriqueira em alguns centros de estudos e pesquisas, mas de fato acredito na potencialidade da informação, da imaginação e do conhecimento, na produção e criação de mundos. O espaço de fluxos articula estas funções e grandezas; naqueles, estas se produzem e constituem o lugar fluido das correntes de bits de informação. Daí seguem para a construção de sentidos e portanto, de conhecimento, que por sua vez articula, concentra e dispersa ao mesmo tempo, indivíduos na formação/ geração da própria sociedade. Organismo fluido, com multi-sentidos, repleto de intenções e tensões no seu interior, onde o conhecimento é gerado e ao mesmo tempo gerido, por meio dos sistemas auto-organizados, base da sociedade e de sua mobilidade.
Aprender com os fluxos: o movimento das formigas, das abelhas e das aves, que sem líderes podem ‘polialogar’ através da aproximação e não pelo domínio supostamente exercido por um líder qualquer. Os movimentos emergentes podem ser observados também na apreensão da cidade em várias escalas de aproximação. Faz-se necessário pensar em rede, ter consciência desta condição, que é a mesma do funcionamento de nosso cérebro. De alguma forma as redes de informação no corpo humano funcionam e muito podem ajudar para o entendimento de outros sistemas. É a tentação de que escreve Prigogine, mas é preciso cuidado e rigor. As analogias contribuem para a aproximação e para conectar os objetos-ações, mas é preciso tentar a própria tentação. O pensamento em rede afasta a lógica do menor percurso entre dois pontos – a reta. Não temos dois pontos apenas a conectar. A vida se faz de multipontos e neste caso, Oscar Niemeyer tem muito a nos dizer:
Não é o ângulo reto que me atrai
nem a linha reta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual,
a curva que encontro nas montanhas do meu país,
no curso sinuoso dos seus rios,
nas ondas do mar,
no corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o universo
o universo curvo de Einstein. (2000. p.17)
Atrair-se pela linha curva: este é o nosso desafio. Os métodos elaborados, os caminhos rígidos e previamente definidos nas pesquisas, os ‘passos a seguir’, a previsibilidade, a monotonia, tudo isso se esvai quando da compreensão dos caminhos múltiplos, da leveza, da materialidade e imaginação do objeto. O inusitado e o inesperado estão nas curvas, onde a trajetória é cambiável, onde não existem impedimentos nem amarras para o percurso. Mais uma vez: informação, conhecimento, cidades e redes – articulações para os espaços urbanos – não são ‘coisas’ dadas, são construídas, forjadas e concebidas, e não o são por heróis ou mentes brilhantes. A produção do conhecimento é algo coletivo, não está totalmente dentro do indivíduo, é preciso provocar, tensionar para que a instabilidade interno-externo faça reagir a capacidade de criar e conectar.
O conhecimento como produto das relações humanas com o mundo-ambiente é fundamental nas articulações dos fluxos no espaço e dos espaços de fluxo. A coisa-informação e a coisa-conhecimento é a coisa-sendo.
Construção, incertezas e inacabamento ...
Deixem-me ficar por estas curva de nossa abordagem.
BIBLIOGRAFIA:
CALVINO, Italo. As cosmicômicas. tradução: Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das letras, 1992.
CASTELLS, Manuel. A questão urbana. Tradução: Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
CASTORIADIS, Cornelius. Feito e ser feito: as encruzilhadas do labirinto V. tradução: Lílian do Valle. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.
FRÓES BURNHAM, T. Complexidade, multirreferencialidade, subjetividade: três referências polêmicas para e compreensão do currículo escolar. In: BARBOSA, Joaquim Gonçalves. Reflexões em torno da abordagem multirreferencial. São Carlos: EdUFSCar, 1998, pp. 35-55.
JOHNSON, Steven. Emergência: a vida integrada de formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
NIEMEYER, Oscar. Minha arquitetura. 3ª ed. Rio de Janeiro: Revan, 2000.
PROGOGINE, Ilya. O fim das certezas: tempo, caos e as leis da natureza. tradução: Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1996.
SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico informacional. 4ª ed. São Paulo: Hucitec, 1998.
________. Por uma geografia nova: da crítica da geografia a uma geografia crítica. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002a.
________.Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 9ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2002b.
POR UMA ABORDAGEM DO ESPAÇO URBANO
SILVIO JOSÉ CONCEIÇÃO*
gropius@uol.com.br
Trata-se de uma abordagem informacional das redes urbanas na construção do conhecimento na/da cidade, passando pela apropriação/apreensão do espaço através de cenários virtuais-informacionais, instituídos num certo lugar, com intenções e desejos variados, decodificados e reapreendidos num lugar outro, (re)significados a partir de uma certa unidade espaço-temporal, cada vez mais diluída e tênue pelo recurso da própria velocidade, e que aqui nos parecem vindas do lugar algum, produzidas por ninguém, e sem qualquer intencionalidade presente em sua (di)fusão. Propomos alguns mergulhos neste universo da informação-matéria-imaginação, abordando a materialidade da informação-imaginação, a imaginação da matéria-informação, e também a informatiCidade da matéria-imaginação. Queremos mergulhar nas tensões desta convivência múltipla, na diversidade e complexidade da coisa-sendo (constituinte e instituinte de relações) e também na multirreferencialidade do espaço, para uma compreensão da vida na e da cidade, na construção do conhecimento, do saber e da informação na rede urbana. Este ensaio propõe uma visão em rede do objeto cidade a partir de reflexões acerca dos fluxos de informação ger(i)(a)dos no espaço urbano como possibilidade para a construção do conhecimento. Observamos os vários percursos da informação e do conhecimento na cidade sob o ponto de vista dos seus aspectos físicos e relacionais como instituidores de redes informacionais.
Palavras-chave: cidade, informação, conhecimento, redes de informação, espaço urbano.
INFORMAÇÃO, CIDADE E CONHECIMENTO
Embrenhei-me num deserto de areia: avançava afundando entre dunas de certa forma sempre diversas umas das outras e no entanto quase iguais. Conforme o ponto do qual fossem olhadas, as cristas das dunas pareciam relevos de corpos estendidos. Aqui parecia modelar-se um braço inclinado sobre um terno seio, com a palma estirando-se sobre uma face reclinada; além parecia surgir de um jovem pé de airosos artelhos. Parado a observar aquelas possíveis analogias, deixei transcorrer um bom minuto antes de me dar conta de que sob meus olhos não tinha um crinal de areia, mas o objeto de minha perseguição
Italo Calvino
Cosmicômicas, 1992.
As abordagens sobre o espaço urbano são realizadas, em grande parte, com enfoque nos fatores físicos, arquitetônicos ou formais da cidade, ou nos fatores econômicos, sociais e culturais individualmente, havendo quase sempre a mutilação de alguns fatores importantes para a compreensão urbana, como por exemplo, os aspectos relacionais entre os elementos/fragmentos urbanos. O que pretendo com este ensaio é a construção de percursos que articulem as redes urbanas e suas questões (Castells), os espaços de fluxos de Milton Santos e a emergência em sistemas auto-organizados de Steven Johnson.
Pleiteamos para os estudos urbanos, em conjunto com as teorias da complexidade, a compreensão dos fenômenos do espaço-cidade a partir (também) das relações estabelecidas e estabelecentes da produção do conhecimento e da informação. Entendemos (também) a cidade como espaço de fluxos, e não apenas em sua configuração físico-espacial, ela é produto e produtora de complexidades que se apresentam nos indivíduos/ grupos e nas articulações/ produções das atividades humanas, onde configuram e constróem o espaço. A cidade aqui é entendida na diversidade de sua constituição, nos movimentos e dinâmicas dos seus elementos/ artefatos formadores, com atenção especial para as relações criadas e estabelecidas entre eles.
O espaço deve ser considerado como um conjunto de relações realizadas através de funções e de formas que se apresentam como testemunho de uma história escrita por processos do passado e do presente. Isto é, o espaço se define como um conjunto de formas representativas de relações sociais do passado e do presente e por uma estrutura representada por relações sociais que estão acontecendo diante dos nossos olhos e que se manifestam através de processos e funções. O espaço é, então, um verdadeiro campo de forças cuja aceleração é desigual. Daí porque a evolução espacial não se faz de forma idêntica em todos os lugares.
Mais uma vez aqui a noção de relatividade produzida por Einstein aparece como fundamental porque substitui o conceito de matéria pelo conceito de campo, o que supõe a existência de relações entre a matéria e a energia. Numa comparação talvez grosseira, as formas seriam comparáveis à matéria e a energia à dinâmica social. (Santos, 2002a. p.153)
CIDADES E REDES
Tratar a cidade num sistema em rede é uma forma de potencializar seus espaços e aqueles gerados a partir de suas articulações. E para isso é importante o entendimento das lógicas de funcionamento que conectam várias atividades/ações/objetos em seus fluxos. Redes de dados, redes de informações, redes de tráfego, redes de produção de conhecimento, redes de comunicação. São várias, e não basta listá-las. Mais importante é tentar conhecer seus princípios. Steven Johnson fala de sistemas auto-organizados em comunidades de formigas, em redes de softwares, no cérebro, e também em cidades. Neste último caso ele retoma algumas considerações de Jane Jacobs, que em seu livro Morte e vida de grandes cidades (1961) fala dos ‘olhos das ruas’, e da apropriação do espaço pelos nova-iorquinos. Os estudos sobre as comunidades de formigas ‘destruíram’ o mito da supremacia da ‘formiga-rainha’. Não existe a formiga-líder, e mesmo assim, o sistema funciona. Johnson ainda cita algumas propostas de softwares que tentam abrigar em sua arquitetura, estruturas auto-organizadas, ao que ele chama de softwares inteligentes, e que a partir do uso e dos conceitos construídos pelos usuários de forma não hierárquica o sistema vai ajustando-se a cada grupo de usuários, que por sua vez, interagem em rede.
O mesmo acontece com o espaço urbano, que à revelia de planos diretores de ocupação do solo, criam espaços especializados em alguns tipos de serviço/atividade ou grupo social. São bairros ou regiões da cidade que concentram empresas de comércio de auto-peças, de papelarias, roupas masculinas, roupas infantis, material esportivo, e assim por diante. Ou seja, existe uma organização que pulsa fora dos sistemas hierárquicos, e isto é uma lição da cidade para as abordagens urbanas.
No nosso caso, o termo abordagem pode ser entendido no sentido dado pela ciência: tratar de, versar sobre algum tema, como também em sentido originário, que vem de borda, estar na borda de algo, ou ainda no sentido de aproximação de uma embarcação para tomá-la de assalto. Estamos tentando uma aproximação com as embarcações da informação e do conhecimento para, nestes cenários e territórios, tratarmos das questões urbanas, que muito têm dos fluxos de informação e conhecimento.
Conhecimento e informação entendidos no sentido da apreensão do espaço e do conhecimento gerado a partir destas dinâmicas, como também de outros modos de produção de conhecimento que acontecem nos espaços urbanos. É importante atentarmos para o espaço urbano também nos seus aspectos físicos, pois é nele que as práticas urbanas acontecem, reconstruindo os sentidos de espaço, como também as lógicas das próprias práticas. São necessárias algumas aberturas nos conceitos de espaço-urbano para que este seja entendido nos aspectos físicos, nas práticas e produções cotidianas, e também nas dinâmicas das práticas nos espaços e dos espaços de práticas.
INFORMAÇÃO, CONHECIMENTO E REDES
Os caminhos da informação e do conhecimento, como também os caminhos na cidade podem parecer aleatórios, produzidos por ninguém, ou definidos segundo o acaso, ou o seu inverso – imposto pelos detentores/operadores do poder da informação e do conhecimento. Mas creio que eles são em grande parte, fruto dos desejos e aspirações de grupos-indivíduos, mesmo que originalmente não tenham sido os ‘pais’ dos ‘modos urbanos’, eles modificam e constróem o sistema à medida em que se apropriam dos espaços, lugares e lógicas. É preciso invocar e compreender os sistemas auto organizados estudados por Prigogine, tomá-los de assalto (e por que não?) para que então possamos estabelecer conexões entre os sistemas de fluxos de informação, conhecimento e pessoas na rede urbana.
Evocamos a informação, o conhecimento e a cidade com o intuito de articular o espaço urbano em suas várias dimensões e referências. Os espaços de fluxos, a circulação da informação, a construção do conhecimento e a capacidade de múltiplas dinâmicas do espaço urbano e da cidade são possibilidades de ligação entre estes campos para a compreensão do que podemos entender como matéria, imaginação e informação. A velocidade da comunicação, a grande capacidade de disseminação da informação pelos meios eletrônicos e de alta tecnologia podem levar aos ‘usuários’, a sensação de não-identidade das fontes da informação. Enquanto em outros meios, poderíamos identificar os autores e produtores da informação, o que observamos hoje é a difusão de páginas na rede mundial que propagam informações aparentemente despersonalizadas. Não que haja algum problema com a disseminação impessoal, apenas não creio que seja verídica esta possibilidade, pois nós produzimos, disseminamos e consumimos a informação, e ao fazermos qualquer um destes ‘passos’, a transformamos.
A questão fundamental aqui é o funcionamento dos sistemas em rede - redes de informação/ pensamento, através do imaginário instituinte da sociedade como aponta Castoriadis, ou da auto-organização dos sistemas emergentes de Steven Johnson.
Neste sentido, é importante a compreensão dos sentidos que articulam questões aparentemente tão distantes. Este, é já um exercício em rede. A propagação ou disseminação da informação na internet, como também nas cidades, acontecem pelas redes relacionais de informação. Redes estas, formadas pelos indivíduos e instituições na produção e espraiamento do objeto-informação. Por outro lado, temos a cidade e sua organização espacial que está ligada às questões econômicas, sociais, sociais e históricas, mas que funcionam como se houvesse algum maestro regendo a orquestra, mesmo que em determinados momentos ela desafine, perca o tom ou compasso. Este maestro não existe. A força da organização é a convivência negociada e ao mesmo tempo, tensional, dos atores sociais, na definição dos espaços de convivência. Podemos pensar numa espécie de ‘consciência’ social, que surge das vivências individuais e da aproximação com o ‘outro’ para a criação de ‘novos’ modos de vida e apreensão social. Novo, no sentido das modificações/ construções e transformações durante o processo de aprendizagem do espaço.
Na organização da cidade, Johnson fala de emergência, no ‘caminhar’ da sociedade, Castoriadis trata do imaginário instituinte, e Castells sobre o espaço urbano, trata da sociedade em rede. Observo nos ‘sistemas’ adotados e pesquisados por estes autores alguma coisa em comum, que é a produção de informação na cidade-sociedade e também de criação/produção de conhecimento na/da sociedade sobre/com o espaço urbano. Informação e conhecimento como articulação dos sistemas emergentes de auto-organização.
Há objetivos explícitos para uma cidade – razões de ser que normalmente seus cidadãos conhecem, decorrentes da proteção proporcionada pela cidade murada ou do comércio livre nos mercados. No entanto, as cidades também têm um objetivo latente: funcionar como mecanismos de armazenamento e recuperação de informações. As cidades criaram interfaces amigáveis milhares de anos antes que alguém sonhasse com computadores digitais. As cidades juntam mentes semelhantes e as colocam em escaninhos conexo. Sapateiros junto de outros sapateiros e fabricantes de botões perto de outros fabricantes de botões. Idéias e mercadorias fluem rapidamente nesses conjuntos, levando à produtiva polinização cruzada, garantindo que boas idéias não morram em áreas rurais isoladas. (Johnson, 2003. p.79)
Johnson, através da ‘emergência’ faz conexões da dinâmica de rede no funcionamento do cérebro, na organização das formigas, nos sistemas urbanos e nos softwares. Esta construção-contribuição permite vislumbrar algumas ‘viagens’ da informação por estes sistemas, e ainda a possibilidade de um conhecimento construente e coletivo. Podemos observar que os sistemas funcionam de modo articulado, e não estanque. Percebe-se um componente coletivo, ou imaginário instituinte na cidade, como também no próprio indivíduo-cérebro. São redes e grupos que trabalham articulando-se com outras redes e grupos.
Sob todos os aspectos, estamos no meio de outra revolução tecnológica – a idade da informação, uma época de conexões quase infinitas. Se o armazenamento e a recuperação de informação eram objetivo latente na explosão urbana da Idade Média, eles são os propósitos evidentes da revolução digital. Isso nos leva à seguinte questão: a Web também está aprendendo? Se é fato que as cidades podem gerar inteligência emergente – um macrocomportamento provocado por milhões de micromotivos -, que forma de nível mais alto está sendo gerada entre os roteadores e os cabos de fibra ótica da Internet? (idem. p.83)
Trata-se de auto-organização. As possibilidades do empreendimento da circulação de informação e construção de conhecimento tem seu potencial ampliado pelas redes informacionais de comunicação. Steven Johnson sugere para um melhor entendimento dos sistemas, a substituição das formigas por neurônios e do feromônio (deixado e seguido pelas formigas) por neurotransmissores como analogia da aprendizagem em formigas, no cérebro e quem sabe na Web, através da conexão dos vários cérebros em rede, o que permitiria ao sistema virtual, um comportamento de vizinhança, embora existam deslocamentos/ distanciamentos espaciais.
O que parece interessante é a capacidade de nossas mentes do reconhecimento da mente do outro; as formigas, pelo rastro de feromônio acumulam alimentos, ou limpam os detritos; as cidades aprendem as funções pela história de suas populações. Acho que isto poderia ser a ‘grande consciência’ que abrange os micromotivos e microcomportamentos ou a instituição imaginária da sociedade, na qual Castoriadis trata da imaginação, relacionando este termo com a imagem, em seu sentido mais geral e também com a idéia de criação:
[...] Não cria “imagens” no sentido habitual (ainda que as crie, também: marcos totêmicos, bandeiras, brasões, etc.), porém formas, que podem ser imagens no sentido geral (assim, falamos de “imagem acústica” de uma palavra), mas que são, de modo central, significações e instituições, as duas sempre solidárias. O termo ‘imaginário’ é aqui um substantivo, e se refere diretamente a uma substância: não é um adjetivo denotando uma qualidade. (1999. p.242)
Assim, trata-se de uma forma de conexão entre a imaginação e a matéria em sua ‘substância’. A imaginação na sociedade, como possibilidade de organização das ações e pensamentos conjuntos, tem implicações materiais e informacionais. A matéria, a imaginação e a informação andam juntas, e diria mais: não podemos facilmente separá-las. Conceber a informação sem o caráter de criação que imaginação pode dar, ou da materialidade da substância fluida é difícil: seria mutilação de sentidos e propósitos. Quero com isso, tratar das articulações entre estas grandezas, se assim podemos chamá-las, para que o pensamento sobre as práticas cotidianas no espaço urbano (assim, como o da circulação da informação pelas várias mídias) não seja a interpretação individualizada ou puramente hierárquica. Existe um componente coletivo e social que dão múltiplos sentidos, quer sobre o território, quer nas vias de transporte da informação. A informação toma o caráter de objeto e imaginação, produtora de diversidades, presente na organização sócio-espacial.
ESPAÇO DE FLUXOS
Milton Santos afirma que o espaço não é estático ou estanque, é fluido, ambiente de fluxos e velocidades:
Hoje, vivemos um mundo da rapidez e da fluidez. Trata-se de uma fluidez virtual, possível pela presença dos novos sistemas técnicos, sobretudo os sistemas da informação, e de uma fluidez efetiva, realizada quando essa fluidez potencial é utilizada no exercício da ação, pelas empresas e instituições hegemônicas. A fluidez potencial aparece no imaginário e na ideologia como se fosse um bem comum, uma fluidez para todos, quando, na verdade, apenas alguns agentes têm a possibilidade de utilizá-la, tornando-se, desse modo, os detentores efetivos da velocidade. O exercício desta é, pois, o resultado das disponibilidades materiais e técnicas existentes e das possibilidades de ação.(2002b. p.83)
O espaço, através da fluidez e rapidez adquire sentidos outros que o diferem do caráter determinista de outrora; o espaço dos fluxos e os fluxos do espaço estão mais próximos da vida contemporânea, onde a informação e o conhecimento transformam-se em valores expressivos da sociedade de consumo e de massas. Não devemos esquecer a advertência de Santos: a quem serve esta velocidade? Quem tem o domínio sobre ela? Existe aqui contradição que desejo explorar, sem no entanto, pensar ser possível esgotar a discussão. Existem movimentos e dinâmicas da informação e do conhecimento, existem os sistemas financeiros e econômicos hegemônicos que detém o poder, e portanto a informação e o conhecimento, e ainda podemos identificar na sociedade, os indivíduos/ grupos que imprimem suas marcas no tempo-espaço de suas vivências, construindo conhecimentos e saberes através das informações conquistadas/ processadas/ construídas. Como podemos falar de sistemas auto-organizados emergentes na cidade e na sociedade, se ainda os dilemas urbanos são mediados pelo capital e pelo poder financeiro e econômico? Se descolarmos a apreensão do espaço, quem sabe não poderemos entender os fenômenos de emergência e ‘subordinação’? Mas isto não seria uma mutilação do estudo e da abordagem? Não é disso que estamos fugindo quando evocamos a auto-organização e emergência em sistemas complexos? Não podemos cair na armadilha da simplificação, como forma única da compreensão destes sistemas-complexus.
Diante das dúvidas e até mesmo para permanecer com elas, é interessante que a abordagem possa abrigar a diferença e opacidade, o complexus e as contradições. Nesta via, a multirreferencialidade nos ajuda a caminhar por este emaranhado de informações, conceitos, conhecimentos, espaços, fluxos e cidade. Se pudermos dizer que a multirreferencialidade tem princípios, diríamos que são o da opacidade do objeto e dos múltiplos olhares, não como negação e mutilação de um ante o outro, mas como forma de distinguir e explorar visões outras, que um olhar hierárquico não pode admitir. A nitidez dos contornos e arestas não se apresenta pois, a cada olhar, uma nova relação se estabelece.
Com estas observações vamos tentar encontrar caminhos para o drama exposto acima. Acredito que as instituições hegemônicas exercem seu poder de pressão sobre a sociedade como um todo, mas esta sociedade não absorve os princípios ingenuamente, existe uma retro-alimentação do sistema que modifica a estrutura de poder por meio das micro-apreensões de cada uma das atividades ou a cada re-construção do conhecimento. Esta dinâmica está presente tanto nos softwares inteligentes, nas cidades ou mesmo no cérebro, a diferença é de escala. Mas a proximidade entre os constituintes do sistema permite a criação de uma ‘consciência’ social mais geral.
Os fluxos nas redes geram outros fluxos a partir de suas próprias dinâmicas. O sistema não se resolve, ele terá sempre a dissipação de energia, o que é fundamental para a sua constante instabilidade e mudança.
Acerca das estruturas dissipativas, podemos falar de “auto-organização”. Mesmo que conheçamos o estado inicial do sistema, o processo de que ele é sede e as condições nos limites, não podemos prever qual dos regimes de atividade esse sistema vai escolher. O alcance desta observação impressionou-me. Não podem as bifurcações ajudar-nos a entender a inovação e a diversificação em áreas outras que a física ou a química? Como resistir à tentação de aplicar essas noções a problemas da esfera da biologia, da sociologia ou da economia?[...] (Prigogine, 1996. p.74)
A aplicação de princípios nascidos em outros ramos da ciência é de fato irresistível, o que leva para as possíveis conexões com a natureza. Uma ciência dá suas contribuições, que são apreendidas e ressignificadas por outras, e a partir daí elas começam a ganhar vida, e podem voltar ao seu nascedouro, já modificadas e transformadas, como num processo de contaminação e combate. Dissipação, auto-organização e emergência, princípios para a compreensão do espaço urbano, e neste sentido, a multirreferencialidade muito tem a contribuir:
A multirreferencialidade (...) parte da idéia de que o objeto é efetivamente suscetível de tratamentos múltiplos, em função não só de suas características, mas também dos modos de interrogação dos atores (sobre esse objeto) e que esta multiplicidade é radical. Cada abordagem, cada referente é como se fosse o limite do outro... É isso, pois que faz a especificidade da nultirreferencialidade, e não a complementaridade, a atividade, a pretensão de uma transparência pressuposta, e de um domínio possível (deste objeto), mas a afirmação de uma vazio necessário, da impossibilidade de (se alcançar) um ponto de vista superior a todos (os demais) pontos de vista e a afirmação da limitação recíproca dos diversos campos disciplinares. Há (pois) diversos campos de referência possíveis, nenhum esgota o objeto, nenhum pode, sobretudo, ser reduzido a outro, ou nenhum pode ser explicativo do outro campo. (Berger, apud Fróes Burnham. 1998:46)
A multirreferencialidade pode ser aqui uma base para as abordagens urbanas, e mais uma vez tomamos de assalto um conceito ao nosso favor. O que pretende-se com isso é a criação de possibilidades para os estudos dos espaços urbanos através de uma ciência que evite a mutilação do objeto. Ao chamar a atenção dos aspectos materiais, informacionais e imaginários dos processos urbanos e sociais, quero apenas indicar que o objeto modifica-se e transforma-se em função de nossa aproximação ou de nosso distanciamento. É como nas imagens evocadas por Italo Calvino (no início do texto) para descrever as dunas e as outras conexões estabelecidas a partir de sua forma. Assim, o olhar não vê apenas a areia que substancialmente conforma as dunas, mas faz dela matéria-prima para sua criação, e portanto, com o uso da imaginação, reconstrói e cria espaços e conceitos díspares em relação à matéria original.
ABORDAGEM URBANA
Penso que alguns caminhos foram traçados em busca de possibilidades outras das abordagens urbanas. Não basta que cada ramo da ciência preocupe-se com a ‘fatia’ do mundo que lhes cabe. É preciso fazer com que as ciências interajam em suas pesquisas, só assim, poderemos caminhar para uma maior apropriação do espaço de nossas vidas. As ligações e articulações entre os objetos existem, é preciso não cortá-las. As ciências podem articular seus saberes e entender a sociedade como construção contínua e coletiva. É uma questão de processo, mais que qualquer outra coisa. Processo contínuo, sem uniformidade, com discrepâncias e contradições, onde as múltiplas dinâmicas procuram cada uma, os seus espaços e territórios.
E onde está o conhecimento, a informação e a cidade? O que tem isso com aquilo? Onde está o espaço urbano? E as redes informacionais? E a auto-organização? Essas perguntas eu continuo a fazer e não obtenho respostas. Talvez porque elas não sejam bem formuladas, pois dizem que uma questão bem formulada, certamente obterá êxito em sua busca. E no caso de termos respostas, para elas, perguntas também serão encontradas. Não estou certo, nem convencido de tudo isto. Mas uma coisa parece certa: para uma abordagem consistente do espaço urbano, não basta um estudo minucioso de suas ‘partes’. São necessários diálogos com a questão urbana, e para isso, as pessoas, as ruas, o capital, os lugares e as atividades precisam ‘falar’, precisam de expressão e de espaço para a comunicação nas abordagens e pesquisas. Aqui o conhecimento, a informação e a imaginação têm papel fundamental nas dialogias das dinâmicas urbanas.
Esta questão, pode em princípio parecer simples, pode até já ser uma prática corriqueira em alguns centros de estudos e pesquisas, mas de fato acredito na potencialidade da informação, da imaginação e do conhecimento, na produção e criação de mundos. O espaço de fluxos articula estas funções e grandezas; naqueles, estas se produzem e constituem o lugar fluido das correntes de bits de informação. Daí seguem para a construção de sentidos e portanto, de conhecimento, que por sua vez articula, concentra e dispersa ao mesmo tempo, indivíduos na formação/ geração da própria sociedade. Organismo fluido, com multi-sentidos, repleto de intenções e tensões no seu interior, onde o conhecimento é gerado e ao mesmo tempo gerido, por meio dos sistemas auto-organizados, base da sociedade e de sua mobilidade.
Aprender com os fluxos: o movimento das formigas, das abelhas e das aves, que sem líderes podem ‘polialogar’ através da aproximação e não pelo domínio supostamente exercido por um líder qualquer. Os movimentos emergentes podem ser observados também na apreensão da cidade em várias escalas de aproximação. Faz-se necessário pensar em rede, ter consciência desta condição, que é a mesma do funcionamento de nosso cérebro. De alguma forma as redes de informação no corpo humano funcionam e muito podem ajudar para o entendimento de outros sistemas. É a tentação de que escreve Prigogine, mas é preciso cuidado e rigor. As analogias contribuem para a aproximação e para conectar os objetos-ações, mas é preciso tentar a própria tentação. O pensamento em rede afasta a lógica do menor percurso entre dois pontos – a reta. Não temos dois pontos apenas a conectar. A vida se faz de multipontos e neste caso, Oscar Niemeyer tem muito a nos dizer:
Não é o ângulo reto que me atrai
nem a linha reta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual,
a curva que encontro nas montanhas do meu país,
no curso sinuoso dos seus rios,
nas ondas do mar,
no corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o universo
o universo curvo de Einstein. (2000. p.17)
Atrair-se pela linha curva: este é o nosso desafio. Os métodos elaborados, os caminhos rígidos e previamente definidos nas pesquisas, os ‘passos a seguir’, a previsibilidade, a monotonia, tudo isso se esvai quando da compreensão dos caminhos múltiplos, da leveza, da materialidade e imaginação do objeto. O inusitado e o inesperado estão nas curvas, onde a trajetória é cambiável, onde não existem impedimentos nem amarras para o percurso. Mais uma vez: informação, conhecimento, cidades e redes – articulações para os espaços urbanos – não são ‘coisas’ dadas, são construídas, forjadas e concebidas, e não o são por heróis ou mentes brilhantes. A produção do conhecimento é algo coletivo, não está totalmente dentro do indivíduo, é preciso provocar, tensionar para que a instabilidade interno-externo faça reagir a capacidade de criar e conectar.
O conhecimento como produto das relações humanas com o mundo-ambiente é fundamental nas articulações dos fluxos no espaço e dos espaços de fluxo. A coisa-informação e a coisa-conhecimento é a coisa-sendo.
Construção, incertezas e inacabamento ...
Deixem-me ficar por estas curva de nossa abordagem.
BIBLIOGRAFIA:
CALVINO, Italo. As cosmicômicas. tradução: Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das letras, 1992.
CASTELLS, Manuel. A questão urbana. Tradução: Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
CASTORIADIS, Cornelius. Feito e ser feito: as encruzilhadas do labirinto V. tradução: Lílian do Valle. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.
FRÓES BURNHAM, T. Complexidade, multirreferencialidade, subjetividade: três referências polêmicas para e compreensão do currículo escolar. In: BARBOSA, Joaquim Gonçalves. Reflexões em torno da abordagem multirreferencial. São Carlos: EdUFSCar, 1998, pp. 35-55.
JOHNSON, Steven. Emergência: a vida integrada de formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
NIEMEYER, Oscar. Minha arquitetura. 3ª ed. Rio de Janeiro: Revan, 2000.
PROGOGINE, Ilya. O fim das certezas: tempo, caos e as leis da natureza. tradução: Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1996.
SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico informacional. 4ª ed. São Paulo: Hucitec, 1998.
________. Por uma geografia nova: da crítica da geografia a uma geografia crítica. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002a.
________.Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 9ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2002b.
Postado por
PROFESSOR MARIO
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15:48
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REDES E HIERARQUIAS URBANAS 2º ano EM
Rede Urbana
A rede urbana é formada pelo sistema de cidades, no território de cada país interligadas umas às outras através dos sistemas de transportes e de comunicações, pelos quais fluem pessoas, mercadorias, informações etc. Obviamente as redes urbanas dos países desenvolvidos são mais densas e articuladas, pois tais países apresentam alto nível de industrialização e de urbanização, economias diversificadas e dinâmicas, vigoroso mercado interno e alta capacidade de consumo. Quanto mais complexa a economia de um país ou de uma região, maior é a sua taxa de urbanização e a quantidade de cidades, mais densa é a sua rede urbana e, portanto, maiores são os fluxos que as interligam. As redes urbanas de muitos países subdesenvolvidos, particularmente daqueles de baixo nível de industrialização e urbanização, são muito desarticuladas, por isso as cidades estão dispersas no território, muitas vezes nem mesmo formando propriamente uma rede.
Assim, As redes das cidades mais densas e articuladas surgem justamente naquelas regiões do planeta onde estão as megalópoles: nordeste e costa oeste dos Estados Unidos, porção ocidental da Europa e sudeste da ilha de Honshu no Japão, embora haja importantes redes em outras regiões do planeta, como aquelas polarizadas pela Cidade do México, por São Paulo, por Buenos Aires e muitas outras de menor importância espalhadas pelo mundo.
Hierarquia Urbana
Desde o final do século XIX, muitos autores passaram a utilizar o conceito de rede urbana para se referir à crescente articulação existente entre as cidades, como resultado da expansão do processo de industrialização ou urbanização, no mesmo período, na tentativa de apreender relações travadas entre as cidades no interior de uma rede, a noção de hierarquia urbana também passou a ser utilizada. O conceito foi tomado do jargão militar, em que há, de fato, uma rígida hierarquia, ou seja, o subordinado tem de se reportar ao seu superior imediato. Assim, por exemplo, no exército, o soldado tem de se reportar ao cabo, que por sua vez tem de se reportar ao sargento, que tem de se reportar ao tenente, capitão etc. sempre num crescendo de poder e de influência, até chegar ao topo máximo da hierarquia, que seria o cargo de general. Desse modo, fazendo uma analogia, a vila seria o soldado e a metrópole completa, o general. Logo a metrópole seria o nível máximo de poder e influência econômica e a vila, o nível mais baixo, e sofreria influência de todas as outras. Desde o final do século XIX até meados da década de 70, foi essa a concepção de hierarquia urbana utilizada. Veja o esquema.
Ocorre que essa concepção tradicional de hierarquia urbana não dá mais conta das relações concretas travadas entre as cidades do interior da rede urbana. Com os crescentes avanços tecnológicos, com a brutal modernização dos sistemas de transportes e de comunicações, com o barateamento e a maior facilidade de obtenção de energia, com a disseminação dos automóveis, enfim, com a "contração" do tempo e o "encurtamento" das distâncias, as relações entre as cidades já não seguem mais o "esquema militar", pelo qual era necessário "galgar" postos dentro da hierarquia das cidades como foi visto acima. Atualmente, já é possível falar da existência de uma nova hierarquia urbana, dentro da qual a relação da vila ou da cidade local pode ser travada com o centro regional, com a metrópole regional ou, em certos níveis, mesmo diretamente com a metrópole nacional.
Assim, é possível uma família morar numa vila (ou bairro) da cidade de Sorocaba (centro regional), que fica aproximadamente a 100 quilômetros de São Paulo, e deslocar-se periodicamente à metrópole paulistana para as compras, ou para o lazer, ou mesmo para trabalhar e, dessa forma, deslocar-se cotidianamente. É possível uma pessoa morar em Araçoiaba da Serra (cidade local) e ter mais vínculos com São Paulo (metrópole nacional) do que com Sorocaba (centro regional). É também plenamente possível uma pessoa residir numa chácara, na zona rural da região de São Roque (cidade local) situada a uns 60 quilômetros de São Paulo e estar totalmente integrada à metrópole, sem Ter necessidade de ir ao centro de São Roque. O que há em comum entre todas essas pessoas é que elas podem dispor de modernas rodovias (Castelo Branco e raposo Tavares) para se deslocar.
Atualmente, uma pessoa pode residir numa chácara ou num sítio, na zona rural, ou numa pequena cidade, lugares distantes de um grande centro, e estar mais integradas do que outra pessoa que resida no interior desse mesmo centro. Se a pessoa vive, por exemplo, numa chácara a quilômetros da grande cidade, mas tem à sua disposição telefone, computador, modem, fax, antena parabólica e um bom automóvel, ela está mais integrada do que a pessoa que mora dentro da cidade, por exemplo, num cortiço ou numa favela, e não tem acesso a todos esses modernos bens e serviços. Percebe-se, portanto, que o que define a integração ou não das pessoas à moderna sociedade capitalista é a maior ou menor disponibilidade de renda e, conseqüentemente, a possibilidade de acesso às novas tecnologias, aos novos conhecimentos, aos novos bens e serviços, e não mais as distâncias que as separam dos lugares.
Essa relativização das distâncias que tem repercussões na rede urbana, também pode ser verificada nas relações capitalistas de produção. Veja o caso da agroindústria do suco de laranja ou de açúcar e álcool do interior do estado de São Paulo. Essas indústrias estão localizadas na zona rural, e no entanto, a mão-de-obra que utilizam, os bóia-frias, vive nas cidades. Além disso, elas dispõem de grandes volumes de capital e produzem para o país inteiro e para o exterior. Tome-se o exemplo da Cutrale, localizada no município de Bebedouro (estado de São Paulo). Praticamente toda a sua produção de suco concentrado está voltada para a exportação e é escoada em caminhões até o porto de Santos, de onde é transportada em navios principalmente para os Estados Unidos. Esta indústria que está na zona rural, relaciona-se com a cidade de Bebedouro contratando trabalhadores, recolhendo impostos etc. e, ao mesmo tempo, com o mundo através de suas exportações.
Nos países desenvolvidos, e mesmo nas regiões industrializados de países subdesenvolvidos, é cada vez mais comum a descentralização das indústrias, instaladas na zona rural, nos eixos de modernas rodovias e ferrovias. Paralelamente, a produção agropecuária foi quase totalmente incorporada pelo capital industrial, pela agroindústria. Tudo isso nos permite concluir que a oposição campo x cidade ou agricultura x indústria já não faz muito sentido na análise geoeconômica dos dias de hoje, notadamente nos países desenvolvidos. A expansão do capital vai envolvendo todas as atividades no processo de modernização, o que acaba levando ao rompimento dessas oposições. Tudo acaba sendo integrado econômica e geograficamente na lógica do lucro, na lógica da reprodução do capital.
VOCÊ PRECISA SABER
• Quais são os fatores que condicionam a urbanização nos países desenvolvidos?
• Quais os principais problemas da urbanização nos países subdesenvolvidos?
• O que você entende por rede e hierarquia urbana?
• Quais as diferenças fundamentais entre a tradicional e a nova hierarquia urbana?
• Por que a clássica oposição campo X cidade e agricultura X indústria já não faz mais sentido atualmente nas regiões mais ricas do planeta?
• O que significa dizer que as distâncias são relativas hoje em dia? Qual é a conseqüência disso na urbanização atual?
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• REDE URBANA E A HIERAQUIA DAS GRANDES CIDADES
• Nem todas as cidades tiveram o mesmo desenvolvimento e algumas cidades cresceram em ritmos diferentes do que outras.Esse fenômeno ocorreu não só em termos do aumento da população, mas também em relação à complexidade dos setores secundários e terciários.Com o capitalismo houve uma intensificação das trocas entre as cidades, e as maiores passaram a ter uma crescente influencia sob as menores, chamada de redes urbanas.Essas são mais complexas em áreas com economias mais desenvolvidas, estabelecendo a partir de sua influência econômica, política, social uma hierarquia urbana sob as redes urbanas e cidades mais atrasadas.
• Metrópole mundial ou cidade global – exerce influencia não somente em seu país, mas em todo o mundo.Ex: NY, Tóquio.Alguns autores da geografia consideram cidades globais somente as cidades globais dos países desenvolvidos.Outros incluem como cidades globais cidades localizadas em países em desenvolvimento, como SP.
• Características das cidades globais: pólo tecnológico, centro econômico e financeiro, forte industrialização e desenvolvimento do setor de serviços, com influência global na dinâmica do sistema capitalista globalizado.Outros exemplos: Chicago, Londres, Paris, Zurique (países ricos); SP, Cidade Do México (países em desenvolvimento).
• IMPORTANTE: existe um conceito de mega cidades formulado pela ONU para classificar cidades com mais de 100 milhões de hab, uma cidade global para a ONU pode ou não se confundir com uma mega cidade.Exemplo: Tóquio (mega cidade e cidade global), SP (mega cidade).
• Metrópole nacional – exerce influência em uma determinada região nacional.Ex: SP, RJ, POA, BH.
• Metrópole regional – Vitória, Goiás, Manaus, Caxias do sul.
• Capital regional- serve de pólo para diversos centros regionais menores- pelotas,rio grande
• Centro regional - tem influencia sob cidades menores e vilas- Torres,Gramado
• Megalópoles
• A crescente urbanização gerou um fenômeno conhecido como conurbação,que designa um processo em que duas ou mais cidades passam a constituir uma área entregada,usufruindo serviços de infra-estrutura comum,tornando as áreas urbanas contínuas.As zonas rurais que ficavam nas periferias dessas cidades foram desaparecendo,ocupadas por atividades tipicamente urbanas,diminuindo assim os espaços entre elas.Os limites entre uma e outra passam a ser praticamente imperceptíveis,não se distinguindo onde começa uma e termina a outra,criando-se uma verdadeira união física das cidades.Isso não significa que necessariamente em áreas conurbadas inexistam zonas rurais.Muitas vezes encontramos pequenas zonas agrícolas,quase sempre voltadas para a policultura que tem como destino o abastecimento das próprias cidades.
• O processo de crescimento e expansão das cidades deram origem às metrópoles,cidades interligadas com serviços de infra-estrutura urbana comuns,onde uma delas exerce uma fortíssima influência sobre as outras sendo por isso chamada de cidade central.Essas áreas metropolitanas continuam em expansão,algumas em um ritmo mais acelerado do que outras.Assim, o espaço ocupado pelas áreas metropolitanas muitas vezes acaba decorrendo em um fenômeno que resulta no surgimento das megalópoles,ou seja, na conurbação das metrópoles.
• Exemplos de megalópoles:
• Boswash no nordeste americano estende-se de washiton até Boston,na região dos grandes Lagos.
• Chipitts nos grandes lagos dos EUA tem uma pop.De 50 milhões de hab,de Chicago até Bittsburgh.
• Japonesa- de Tóquio até Nagasáqui,como mais de 100 milhões de hab.
• As cidades tecnopólos – a revolução tecnocientífica (terceira revolução industrial) que marcou o século 20.,Em especial sua segunda metade,trouxe conseqüências também na organização espacial das cidades,dando origem àquelas conhecidas como tecnopólos.Hoje a tecnologia é vital para as relações econômicas.A pesquisa e os institutos de tecnologia de ponta passaram a ser os centros nervosos para a própria dinâmica do mundo capitalista.Nos anos noventa um fenômeno importante marca a transformação de antigos centros universitários de pesquisa avançada passam a ter uma revolução ativa com as empresas de alta tecnologia,como por exemplo,de informática ,telecomunicações e biotecnologia.Esses centros de excelência tornaram-se pólos para a atração de indústrias dessa área.Os tecnopólos normalmente estão situados próximos a grandes centros urbanos.Um dos mais importantes tecnopólos norte-americanos é Boston,Massachusetts,onde estão duas das mais importantes universidades do mundo como Harvard e o MIT.Nessa área alem da indústria bélica,encontramos muitas outras companhias ligadas a outros ramos da tecnologia de ponta.Embora esse tipo de aglomeração seja típico dos países ricos,dado ao volume de investimento e a complexidade da infra-estrutura técnica,países como a índia e a Coréia do Sul vem investindo muito em educação e em pesquisas para desenvolver seus tecnopólos.
A rede urbana é formada pelo sistema de cidades, no território de cada país interligadas umas às outras através dos sistemas de transportes e de comunicações, pelos quais fluem pessoas, mercadorias, informações etc. Obviamente as redes urbanas dos países desenvolvidos são mais densas e articuladas, pois tais países apresentam alto nível de industrialização e de urbanização, economias diversificadas e dinâmicas, vigoroso mercado interno e alta capacidade de consumo. Quanto mais complexa a economia de um país ou de uma região, maior é a sua taxa de urbanização e a quantidade de cidades, mais densa é a sua rede urbana e, portanto, maiores são os fluxos que as interligam. As redes urbanas de muitos países subdesenvolvidos, particularmente daqueles de baixo nível de industrialização e urbanização, são muito desarticuladas, por isso as cidades estão dispersas no território, muitas vezes nem mesmo formando propriamente uma rede.
Assim, As redes das cidades mais densas e articuladas surgem justamente naquelas regiões do planeta onde estão as megalópoles: nordeste e costa oeste dos Estados Unidos, porção ocidental da Europa e sudeste da ilha de Honshu no Japão, embora haja importantes redes em outras regiões do planeta, como aquelas polarizadas pela Cidade do México, por São Paulo, por Buenos Aires e muitas outras de menor importância espalhadas pelo mundo.
Hierarquia Urbana
Desde o final do século XIX, muitos autores passaram a utilizar o conceito de rede urbana para se referir à crescente articulação existente entre as cidades, como resultado da expansão do processo de industrialização ou urbanização, no mesmo período, na tentativa de apreender relações travadas entre as cidades no interior de uma rede, a noção de hierarquia urbana também passou a ser utilizada. O conceito foi tomado do jargão militar, em que há, de fato, uma rígida hierarquia, ou seja, o subordinado tem de se reportar ao seu superior imediato. Assim, por exemplo, no exército, o soldado tem de se reportar ao cabo, que por sua vez tem de se reportar ao sargento, que tem de se reportar ao tenente, capitão etc. sempre num crescendo de poder e de influência, até chegar ao topo máximo da hierarquia, que seria o cargo de general. Desse modo, fazendo uma analogia, a vila seria o soldado e a metrópole completa, o general. Logo a metrópole seria o nível máximo de poder e influência econômica e a vila, o nível mais baixo, e sofreria influência de todas as outras. Desde o final do século XIX até meados da década de 70, foi essa a concepção de hierarquia urbana utilizada. Veja o esquema.
Ocorre que essa concepção tradicional de hierarquia urbana não dá mais conta das relações concretas travadas entre as cidades do interior da rede urbana. Com os crescentes avanços tecnológicos, com a brutal modernização dos sistemas de transportes e de comunicações, com o barateamento e a maior facilidade de obtenção de energia, com a disseminação dos automóveis, enfim, com a "contração" do tempo e o "encurtamento" das distâncias, as relações entre as cidades já não seguem mais o "esquema militar", pelo qual era necessário "galgar" postos dentro da hierarquia das cidades como foi visto acima. Atualmente, já é possível falar da existência de uma nova hierarquia urbana, dentro da qual a relação da vila ou da cidade local pode ser travada com o centro regional, com a metrópole regional ou, em certos níveis, mesmo diretamente com a metrópole nacional.
Assim, é possível uma família morar numa vila (ou bairro) da cidade de Sorocaba (centro regional), que fica aproximadamente a 100 quilômetros de São Paulo, e deslocar-se periodicamente à metrópole paulistana para as compras, ou para o lazer, ou mesmo para trabalhar e, dessa forma, deslocar-se cotidianamente. É possível uma pessoa morar em Araçoiaba da Serra (cidade local) e ter mais vínculos com São Paulo (metrópole nacional) do que com Sorocaba (centro regional). É também plenamente possível uma pessoa residir numa chácara, na zona rural da região de São Roque (cidade local) situada a uns 60 quilômetros de São Paulo e estar totalmente integrada à metrópole, sem Ter necessidade de ir ao centro de São Roque. O que há em comum entre todas essas pessoas é que elas podem dispor de modernas rodovias (Castelo Branco e raposo Tavares) para se deslocar.
Atualmente, uma pessoa pode residir numa chácara ou num sítio, na zona rural, ou numa pequena cidade, lugares distantes de um grande centro, e estar mais integradas do que outra pessoa que resida no interior desse mesmo centro. Se a pessoa vive, por exemplo, numa chácara a quilômetros da grande cidade, mas tem à sua disposição telefone, computador, modem, fax, antena parabólica e um bom automóvel, ela está mais integrada do que a pessoa que mora dentro da cidade, por exemplo, num cortiço ou numa favela, e não tem acesso a todos esses modernos bens e serviços. Percebe-se, portanto, que o que define a integração ou não das pessoas à moderna sociedade capitalista é a maior ou menor disponibilidade de renda e, conseqüentemente, a possibilidade de acesso às novas tecnologias, aos novos conhecimentos, aos novos bens e serviços, e não mais as distâncias que as separam dos lugares.
Essa relativização das distâncias que tem repercussões na rede urbana, também pode ser verificada nas relações capitalistas de produção. Veja o caso da agroindústria do suco de laranja ou de açúcar e álcool do interior do estado de São Paulo. Essas indústrias estão localizadas na zona rural, e no entanto, a mão-de-obra que utilizam, os bóia-frias, vive nas cidades. Além disso, elas dispõem de grandes volumes de capital e produzem para o país inteiro e para o exterior. Tome-se o exemplo da Cutrale, localizada no município de Bebedouro (estado de São Paulo). Praticamente toda a sua produção de suco concentrado está voltada para a exportação e é escoada em caminhões até o porto de Santos, de onde é transportada em navios principalmente para os Estados Unidos. Esta indústria que está na zona rural, relaciona-se com a cidade de Bebedouro contratando trabalhadores, recolhendo impostos etc. e, ao mesmo tempo, com o mundo através de suas exportações.
Nos países desenvolvidos, e mesmo nas regiões industrializados de países subdesenvolvidos, é cada vez mais comum a descentralização das indústrias, instaladas na zona rural, nos eixos de modernas rodovias e ferrovias. Paralelamente, a produção agropecuária foi quase totalmente incorporada pelo capital industrial, pela agroindústria. Tudo isso nos permite concluir que a oposição campo x cidade ou agricultura x indústria já não faz muito sentido na análise geoeconômica dos dias de hoje, notadamente nos países desenvolvidos. A expansão do capital vai envolvendo todas as atividades no processo de modernização, o que acaba levando ao rompimento dessas oposições. Tudo acaba sendo integrado econômica e geograficamente na lógica do lucro, na lógica da reprodução do capital.
VOCÊ PRECISA SABER
• Quais são os fatores que condicionam a urbanização nos países desenvolvidos?
• Quais os principais problemas da urbanização nos países subdesenvolvidos?
• O que você entende por rede e hierarquia urbana?
• Quais as diferenças fundamentais entre a tradicional e a nova hierarquia urbana?
• Por que a clássica oposição campo X cidade e agricultura X indústria já não faz mais sentido atualmente nas regiões mais ricas do planeta?
• O que significa dizer que as distâncias são relativas hoje em dia? Qual é a conseqüência disso na urbanização atual?
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• REDE URBANA E A HIERAQUIA DAS GRANDES CIDADES
• Nem todas as cidades tiveram o mesmo desenvolvimento e algumas cidades cresceram em ritmos diferentes do que outras.Esse fenômeno ocorreu não só em termos do aumento da população, mas também em relação à complexidade dos setores secundários e terciários.Com o capitalismo houve uma intensificação das trocas entre as cidades, e as maiores passaram a ter uma crescente influencia sob as menores, chamada de redes urbanas.Essas são mais complexas em áreas com economias mais desenvolvidas, estabelecendo a partir de sua influência econômica, política, social uma hierarquia urbana sob as redes urbanas e cidades mais atrasadas.
• Metrópole mundial ou cidade global – exerce influencia não somente em seu país, mas em todo o mundo.Ex: NY, Tóquio.Alguns autores da geografia consideram cidades globais somente as cidades globais dos países desenvolvidos.Outros incluem como cidades globais cidades localizadas em países em desenvolvimento, como SP.
• Características das cidades globais: pólo tecnológico, centro econômico e financeiro, forte industrialização e desenvolvimento do setor de serviços, com influência global na dinâmica do sistema capitalista globalizado.Outros exemplos: Chicago, Londres, Paris, Zurique (países ricos); SP, Cidade Do México (países em desenvolvimento).
• IMPORTANTE: existe um conceito de mega cidades formulado pela ONU para classificar cidades com mais de 100 milhões de hab, uma cidade global para a ONU pode ou não se confundir com uma mega cidade.Exemplo: Tóquio (mega cidade e cidade global), SP (mega cidade).
• Metrópole nacional – exerce influência em uma determinada região nacional.Ex: SP, RJ, POA, BH.
• Metrópole regional – Vitória, Goiás, Manaus, Caxias do sul.
• Capital regional- serve de pólo para diversos centros regionais menores- pelotas,rio grande
• Centro regional - tem influencia sob cidades menores e vilas- Torres,Gramado
• Megalópoles
• A crescente urbanização gerou um fenômeno conhecido como conurbação,que designa um processo em que duas ou mais cidades passam a constituir uma área entregada,usufruindo serviços de infra-estrutura comum,tornando as áreas urbanas contínuas.As zonas rurais que ficavam nas periferias dessas cidades foram desaparecendo,ocupadas por atividades tipicamente urbanas,diminuindo assim os espaços entre elas.Os limites entre uma e outra passam a ser praticamente imperceptíveis,não se distinguindo onde começa uma e termina a outra,criando-se uma verdadeira união física das cidades.Isso não significa que necessariamente em áreas conurbadas inexistam zonas rurais.Muitas vezes encontramos pequenas zonas agrícolas,quase sempre voltadas para a policultura que tem como destino o abastecimento das próprias cidades.
• O processo de crescimento e expansão das cidades deram origem às metrópoles,cidades interligadas com serviços de infra-estrutura urbana comuns,onde uma delas exerce uma fortíssima influência sobre as outras sendo por isso chamada de cidade central.Essas áreas metropolitanas continuam em expansão,algumas em um ritmo mais acelerado do que outras.Assim, o espaço ocupado pelas áreas metropolitanas muitas vezes acaba decorrendo em um fenômeno que resulta no surgimento das megalópoles,ou seja, na conurbação das metrópoles.
• Exemplos de megalópoles:
• Boswash no nordeste americano estende-se de washiton até Boston,na região dos grandes Lagos.
• Chipitts nos grandes lagos dos EUA tem uma pop.De 50 milhões de hab,de Chicago até Bittsburgh.
• Japonesa- de Tóquio até Nagasáqui,como mais de 100 milhões de hab.
• As cidades tecnopólos – a revolução tecnocientífica (terceira revolução industrial) que marcou o século 20.,Em especial sua segunda metade,trouxe conseqüências também na organização espacial das cidades,dando origem àquelas conhecidas como tecnopólos.Hoje a tecnologia é vital para as relações econômicas.A pesquisa e os institutos de tecnologia de ponta passaram a ser os centros nervosos para a própria dinâmica do mundo capitalista.Nos anos noventa um fenômeno importante marca a transformação de antigos centros universitários de pesquisa avançada passam a ter uma revolução ativa com as empresas de alta tecnologia,como por exemplo,de informática ,telecomunicações e biotecnologia.Esses centros de excelência tornaram-se pólos para a atração de indústrias dessa área.Os tecnopólos normalmente estão situados próximos a grandes centros urbanos.Um dos mais importantes tecnopólos norte-americanos é Boston,Massachusetts,onde estão duas das mais importantes universidades do mundo como Harvard e o MIT.Nessa área alem da indústria bélica,encontramos muitas outras companhias ligadas a outros ramos da tecnologia de ponta.Embora esse tipo de aglomeração seja típico dos países ricos,dado ao volume de investimento e a complexidade da infra-estrutura técnica,países como a índia e a Coréia do Sul vem investindo muito em educação e em pesquisas para desenvolver seus tecnopólos.
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Espaço Agropecuário brasileiro 2ª A
Espaço Agropecuário brasileiro
Aspectos da formação do espaço agrário brasileiro
Domingos Nascimento Silva*
Em seu estado da natureza o homem viveu sem organização de relações entre si ou com instituições; com a evolução o homem passou ao estado da sociedade civil, com o estabelecimento de regras de convivência e instituições. A questão da posse e propriedade da terra insere-se nestes estágios evolutivos, sendo que após o período do nomadismo ela passou a ser fator de disputa na fixação em determinada região, e importante para a sobrevivência de civilizações.Os conceitos solo e terra não são iguais. O solo é um corpo natural que resulta da ação de fatores como o clima, os organismos e o tempo, sobre a rocha matriz, em determinada condição de relevo. A interação do solo com o meio que o cerca define a terra; o conceito terra abrange, portanto, não apenas o solo, mas outros elementos como localização, relevo, vegetação, erosão e clima.A atividade agropecuária apresenta peculiaridades em relação às outras atividades econômicas, e em especial em relação à indústria, destacando-se entre elas o fato de que o meio de produção fundamental na agropecuária, a terra, não pode ser multiplicado pelo homem, da maneira como ocorre com as máquinas e outros fatores de produção; devido a isto, a sua apropriação histórica assume uma importância fundamental. Houve um grande desenvolvimento da Agronomia nas últimas décadas, permitindo inclusive que com a hidroponia sejam realizados cultivos em soluções nutritivas, sem o uso do solo; entretanto, o cultivo hidropônico se dá de forma limitada em relação às espécies, estruturas das plantas e resultados econômicos.Este artigo analisa o processo de formação do espaço agrário brasileiro, a partir da descoberta, colonização e ocupação do País, apresentando os principais fatos que nortearam a organização do território. Os fatos mais recentes, ocorridos neste século, já numa perspectiva de correção dos problemas da estrutura agrária formada, também são analisados.A COLONIZAÇÃO E OCUPAÇÃO DO ESPAÇO AGRÁRIO BRASILEIRONa expansão do comércio marítimo de Portugal houve o descobrimento do Brasil, que passou a ser uma importante colônia, contribuindo para a manutenção de Portugal em posição destacada no cenário mercantilista europeu. A fase inicial da colonização brasileira é marcada pela implantação do sistema mercantil, com a existência de relações escravistas, em um País habitado por indígenas em estado primitivo de organização social e produtiva.No período de 1500 a 1530 estabeleceu-se no Brasil a fase de escambo, predominando as atividades extrativistas, principalmente do pau-brasil. As áreas com o pau-brasil eram arrendadas a particulares, com a reserva do monopólio real; este sistema foi substituído pela liberdade comercial e o pagamento de um quinto dos produtos exportados. Com os índios realizava-se a troca do pau-brasil e madeiras finas para marcenaria, que eles forneciam, por objetos como machados, foices, facões, anzóis, pentes e espelhos, de pequeno valor monetário.Seguiu-se à fase de escambo o regime das sesmarias, durante o período de 1530 a 1822. Este regime foi utilizado em Portugal em 1375, a partir de uma crise agrícola, e objetivava o cultivo obrigatório das terras incultas. As sesmarias funcionaram em Portugal, o mesmo não acontecendo no Brasil, em que houve desvirtuamentos, com o benefício de uma minoria e gerando a grande propriedade improdutiva. No Brasil o compromisso de tornar produtivas as grandes áreas recebidas não era cumprido, e a dimensão continental da colônia tornava a fiscalização muito difícil.O rei de Portugal instituiu o sistema de capitanias hereditárias para o Brasil, em 1534, com a divisão da colônia em quinze lotes, que foram distribuídos entre doze donatários, que tinham poderes para conceder terras como melhor lhes convinham, apenas recolhendo o dízimo à Ordem de Cristo, que era administrada pelo rei de Portugal. Houve prosperidade em apenas duas capitanias hereditárias, as de São Vicente e de Pernambuco, com os comandos de, respectivamente, Martim Afonso de Souza e Duarte Coelho; favorecidas com o desenvolvimento da lavoura canavieira, a paz com os indígenas, e a excelente administração, incluindo o recebimento de investimentos de capital europeu. Com o fracasso do sistema de capitanias hereditárias, o rei de Portugal, buscando impulsionar a colonização, criou o Governo-Geral, que funcionaria como um órgão de coordenação das capitanias hereditárias; não se verificou mudanças significativas no sistema de distribuição das terras.Verificou-se durante o regime das sesmarias no Brasil o desenvolvimento do sistema de posses, em função de necessidades econômicas e sociais. Este sistema não tinha amparo legal, e envolvia inicialmente populações pobres; entretanto, com o fim do regime das sesmarias, que ocorreu a partir do fim do período colonial, este sistema passou a abranger grandes áreas de terra.
Prado Júnior (1987) observa que o acentuado grau de concentração fundiária no Brasil resulta da natureza da economia constituída com a colonização e ocupação progressiva do território, baseada na grande propriedade e no estabelecimento de atividades mercantis. A colônia deveria cumprir o papel de fornecer em larga escala produtos primários aos mercados europeus.Em INCRA (1987) é assinalado que não existe um levantamento completo das doações de terras ocorridas no período das sesmarias no Brasil. Para o Estado da Bahia, é mencionada nesta publicação, como a mais importante doação, a concedida ao armador-mor D. Álvaro da Costa, denominada de capitania de Peroaçu, envolvendo todo o território entre as barras do Paraguaçu e o Jaguaribe. É citada ainda como importante, a doação da Ilha de Itaparica, ao Conde de Castanheira. Também é observado que a pecuária acentuou a tendência à formação de imensas propriedades e a sua concentração nas mãos de poucas pessoas; com o extenso sertão baiano, nos séculos XVI e XVII, estando sob o domínio de apenas duas famílias, a Casa da Torre e os Guedes de Brito.
A agricultura de subsistência enfrentou muitas dificuldades no processo de colonização e ocupação do território brasileiro, mas se tornou, com o decorrer dos séculos, em importante atividade para parcela significativa da população rural. A agricultura de subsistência desenvolveu-se nas grandes áreas das monoculturas e da pecuária extensiva, e também em unidades pequenas, em que o proprietário ou o ocupante trabalhavam diretamente a terra, normalmente em áreas de qualidade inferior e distante dos centros urbanos.Sodero (1982) observa que o Estatuto da Terra, e o Direito Agrário brasileiro, fundamentam-se na doutrina da função social da propriedade, segundo a qual toda a riqueza produtiva tem uma finalidade social e econômica, e aquele que a detém deve fazê-la frutificar, em benefício próprio e da comunidade em que vive. A terra rural, portanto, não é um direito individualista, devendo gerar produtos agropecuários, agro-industriais e empregos, preservando o equilíbrio ecológico.Esta doutrina, anteriormente um princípio, não é recente no mundo, tendo sido exposto inicialmente, de forma simples, na antigüidade grega por Aristóteles, e já no século XIII estas idéias iniciais foram cristianizadas por Santo Tomás de Aquino, com a afirmação de que "cada coisa alcança sua colocação ótima, quando é ordenada para seu próprio fim''. Entretanto, estes fundamentos foram pouco usados no decorrer dos séculos anteriores ao atual, apesar de serem até lembrados em algumas ocasiões, como por exemplo na concessão das sesmarias no Brasil, em que fora estabelecido que se destinassem áreas de terras que um homem pudesse explorar com os recursos disponíveis, e determinado um tempo para que isto efetivamente ocorresse, caso contrário a doação seria cancelada; observa-se aí a busca do cumprimento da função social da propriedade, que infelizmente não chegou a existir na acepção da expressão.Na Constituição brasileira de 1934 é introduzida a doutrina da função social da propriedade, um pouco tardiamente pois outras cartas magnas da América Latina já a haviam adotada desde 1919.O Estatuto da Terra, Lei n° 4.504, de 30 de novembro de 1964, apresenta os fundamentos da área agrária no Brasil. Vários países da América Latina haviam se comprometido na Conferência de Punta del Este, em 1960, a realizar a Reforma Agrária, entre eles o Brasil. Havia no País uma mobilização intensa de trabalhadores rurais reivindicando a realização da Reforma Agrária. O Governo do Marechal Castelo Branco criou um grupo de trabalho em 1964, que elaborou o Estatuto da Terra, que não se limitou à Reforma Agrária, abrangendo a área de desenvolvimento rural. Esperava-se ações significativas para resolver o problema da desigualdade da distribuição das terras, mas as ações voltaram-se para as áreas cadastral, tributária e de colonização, e de modernização da agropecuária, esta ocorrendo nas grandes e médias propriedades.Sobre a doutrina da função social da propriedade, o Estatuto da Terra estabelece no seu artigo segundo que:A propriedade da terra desempenha integralmente a sua função social quando, simultaneamente:a) favorece o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores que nela labutam, assim como de suas famílias;b) mantém níveis satisfatórios de produtividade;c) assegura a conservação dos recursos naturais;d) observa as disposições legais que regulam as justas relações de trabalho entre os que a possuem e a cultivam.Verifica-se que o cumprimento da função social presente no Estatuto da Terra, e nas demais legislações da área agrária, abrange aspectos da produção da atividade, da conservação e preservação do meio ambiente, e das relações de trabalho e de convivência entre as pessoas no imóvel rural.A Constituição brasileira de 1988 dedica o Capítulo III, do Título VII, à Política Agrícola e Fundiária e à Reforma Agrária. Entretanto, as ações na área agrária tiveram dificuldades de implementação, só reduzidas com a aprovação da Lei n 8.629, de 25 de fevereiro de 1993, que regulamentou disposições sobre a Reforma Agrária contidas neste Capítulo; e as aprovações que se seguiram de outras legislações.No início da década de oitenta havia uma mobilização de trabalhadores rurais no Brasil, reivindicando a realização da Reforma Agrária; a luta dos trabalhadores rurais nesta época contribuiu para a formulação do I Plano Nacional de Reforma Agrária PNRA, aprovado pelo Governo Federal em outubro de 1985. Entretanto as ações de Reforma Agrária com o IPNRA foram pequenas. Apenas a partir de 1995 é que se inicia no Brasil um programa de distribuição de terras que pode ser considerado, ao mesmo tempo, significativo, relativamente ao que foi feito historicamente, mas ainda pequeno, considerando a dimensão do problema agrário do País. Deve-se ressaltar que o conceito Reforma Agrária abrange um conjunto de medidas, incluindo o acesso dos trabalhadores rurais à terra, e outras que permitam o desenvolvimento local e regional.Durante o processo de colonização e ocupação do território brasileiro não houve mecanismos para impedir a concentração de terras, nem o País realizou a Reforma Agrária para corrigir as distorções formadas nesta área. Com o argumento da superioridade tecnológica da grande produção capitalista e da sua capacidade de atender eficientemente a toda demanda de alimentos e matérias primas agrícolas, questiona-se nas discussões atuais que o Brasil teria perdido a oportunidade histórica de realizar a Reforma Agrária. Entretanto, o País apresenta o recurso terra em abundância, cujo acesso deve ser democratizado, resolvendo um processo histórico de concentração. A grande atividade agropecuária, com o uso de tecnologia avançada, não é a única via a ser percorrida, inclusive porque os aspectos de viabilidade econômica, sustentabilidade ambiental e impacto social, devem ser considerados conjuntamente, não se enfatizando alguns aspectos e desconsiderando outros. A pequena produção deve ser apoiada, com o agricultor utilizando tecnologias apropriadas, e passando por um processo de crescimento técnico, econômico e social.O Brasil apresenta uma distribuição desigual do recurso terra, fato evidenciado em pesquisas realizadas sobre o tema. Tal questão não é recente, e resulta do processo de colonização e ocupação do território, tendo sido analisado neste artigo. O programa de Reforma Agrária em execução no Brasil tem permitido para muitos trabalhadores rurais o acesso à terra. Possibilitar aos assentamentos de Reforma Agrária criados, a viabilidade econômica, social e ambiental, é fundamental, atingindo com isto os objetivos da Reforma Agrária, e impedindo que ocorram processos de reconcentração no espaço agrário do País.
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Marcadores: Espaço Brasileiro
O espaço Industrial brasileiro
O espaço industrial brasileiroCONCENTRAÇÃO E DESCONCENTRAÇÃO INDUSTRIAL Os processos de industrialização promovem, sempre, a concentração espacial da riqueza e dos recursos financeiros e produtivos. Essa tendência de concentração espacial acompanhou a industrialização brasileira, desde o início do século XX. Em escala nacional, o seu resultado foi a configuração, no Sudeste, de uma região industrial central, dinâmica e integrada. O núcleo dessa região corresponde ao Estado de São Paulo. Além da dinâmica da economia de mercado, a geografia industrial depende das estratégias do Estado. Entre as décadas de 1940 e 1960, a política estatal de desenvolvimento da grande siderurgia abriu uma nova etapa da industrialização brasileira, reforçando a tendência de concentração espacial da indústria no Sudeste. A grande siderurgia brasileira nasceu a partir de duas empresas estatais: a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). A segunda encarregou-se da extração, do transporte ferroviário e naval e da comercialização dos minérios do Quadrilátero Ferrífero, antes de expandir as suas atividades para inúmeras outras jazidas do País. O Estado de São Paulo, núcleo industrial mais dinâmico do Centro-Sul, não está em declínio industrial. As fábricas baseadas no uso intensivo de mão-de-obra são repelidas para outras localizações, mas os principais investimentos em indústrias de alta tecnologia continuam a ser atraídos por São Paulo. A redução da participação do Estado no emprego não é acompanhada por uma diminuição tão acentuada no valor da produção industrial. A SUDENE E A INDUSTRIALIZAÇÃO DO NORDESTE
A industrialização moderna do Nordeste associou-se a uma fase do modelo de substituição de importações marcada pela importância das políticas de desenvolvimento regional do Estado. Essas políticas conduziram a processos de desconcentração da indústria, em escala nacional, e de concentração industrial, em escala regional. A criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), em 1960, foi o ponto de partida de um projeto de desconcentração industrial baseado no planejamento estatal. Por meio de um vasto programa de incentivos fiscais, o Estado conseguiu direcionar investimentos privados do Centro-Sul para o Nordeste. A implantação de usinas hidrelétricas de porte no Rio São Francisco e a presença de mão-de-obra abundante e barata funcionaram como incentivos suplementares.Na Bahia, essa estratégia conduziu à criação do pólo petroquímico de Camaçari e do distrito industrial de Aratu, ambos na região metropolitana de Salvador, O pólo de Camaçari, estabelecido na década de 1970, gira em tomo da Refinaria Landulfo Alves, da Petrobras. O parque industrial químico representou alteração estrutural na economia baiana, tornando-se logo a principal fonte de receita tributária do Estado. No distrito de Aratu predominam as indústrias de bens de consumo duráveis atraídas pelos incentivos da Sudene. O impulso promovido pela Sudene gerou também pólos de produção de bens intermediários como as indústrias de fertilizantes de Sergipe e o complexo químico Salgema de Alagoas. Os insumos produzidos por esses pólos são, em geral, transformados no Sudeste e, em especial, no Estado de São Paulo.
Aspectos da formação do espaço agrário brasileiro
Domingos Nascimento Silva*
Em seu estado da natureza o homem viveu sem organização de relações entre si ou com instituições; com a evolução o homem passou ao estado da sociedade civil, com o estabelecimento de regras de convivência e instituições. A questão da posse e propriedade da terra insere-se nestes estágios evolutivos, sendo que após o período do nomadismo ela passou a ser fator de disputa na fixação em determinada região, e importante para a sobrevivência de civilizações.Os conceitos solo e terra não são iguais. O solo é um corpo natural que resulta da ação de fatores como o clima, os organismos e o tempo, sobre a rocha matriz, em determinada condição de relevo. A interação do solo com o meio que o cerca define a terra; o conceito terra abrange, portanto, não apenas o solo, mas outros elementos como localização, relevo, vegetação, erosão e clima.A atividade agropecuária apresenta peculiaridades em relação às outras atividades econômicas, e em especial em relação à indústria, destacando-se entre elas o fato de que o meio de produção fundamental na agropecuária, a terra, não pode ser multiplicado pelo homem, da maneira como ocorre com as máquinas e outros fatores de produção; devido a isto, a sua apropriação histórica assume uma importância fundamental. Houve um grande desenvolvimento da Agronomia nas últimas décadas, permitindo inclusive que com a hidroponia sejam realizados cultivos em soluções nutritivas, sem o uso do solo; entretanto, o cultivo hidropônico se dá de forma limitada em relação às espécies, estruturas das plantas e resultados econômicos.Este artigo analisa o processo de formação do espaço agrário brasileiro, a partir da descoberta, colonização e ocupação do País, apresentando os principais fatos que nortearam a organização do território. Os fatos mais recentes, ocorridos neste século, já numa perspectiva de correção dos problemas da estrutura agrária formada, também são analisados.A COLONIZAÇÃO E OCUPAÇÃO DO ESPAÇO AGRÁRIO BRASILEIRONa expansão do comércio marítimo de Portugal houve o descobrimento do Brasil, que passou a ser uma importante colônia, contribuindo para a manutenção de Portugal em posição destacada no cenário mercantilista europeu. A fase inicial da colonização brasileira é marcada pela implantação do sistema mercantil, com a existência de relações escravistas, em um País habitado por indígenas em estado primitivo de organização social e produtiva.No período de 1500 a 1530 estabeleceu-se no Brasil a fase de escambo, predominando as atividades extrativistas, principalmente do pau-brasil. As áreas com o pau-brasil eram arrendadas a particulares, com a reserva do monopólio real; este sistema foi substituído pela liberdade comercial e o pagamento de um quinto dos produtos exportados. Com os índios realizava-se a troca do pau-brasil e madeiras finas para marcenaria, que eles forneciam, por objetos como machados, foices, facões, anzóis, pentes e espelhos, de pequeno valor monetário.Seguiu-se à fase de escambo o regime das sesmarias, durante o período de 1530 a 1822. Este regime foi utilizado em Portugal em 1375, a partir de uma crise agrícola, e objetivava o cultivo obrigatório das terras incultas. As sesmarias funcionaram em Portugal, o mesmo não acontecendo no Brasil, em que houve desvirtuamentos, com o benefício de uma minoria e gerando a grande propriedade improdutiva. No Brasil o compromisso de tornar produtivas as grandes áreas recebidas não era cumprido, e a dimensão continental da colônia tornava a fiscalização muito difícil.O rei de Portugal instituiu o sistema de capitanias hereditárias para o Brasil, em 1534, com a divisão da colônia em quinze lotes, que foram distribuídos entre doze donatários, que tinham poderes para conceder terras como melhor lhes convinham, apenas recolhendo o dízimo à Ordem de Cristo, que era administrada pelo rei de Portugal. Houve prosperidade em apenas duas capitanias hereditárias, as de São Vicente e de Pernambuco, com os comandos de, respectivamente, Martim Afonso de Souza e Duarte Coelho; favorecidas com o desenvolvimento da lavoura canavieira, a paz com os indígenas, e a excelente administração, incluindo o recebimento de investimentos de capital europeu. Com o fracasso do sistema de capitanias hereditárias, o rei de Portugal, buscando impulsionar a colonização, criou o Governo-Geral, que funcionaria como um órgão de coordenação das capitanias hereditárias; não se verificou mudanças significativas no sistema de distribuição das terras.Verificou-se durante o regime das sesmarias no Brasil o desenvolvimento do sistema de posses, em função de necessidades econômicas e sociais. Este sistema não tinha amparo legal, e envolvia inicialmente populações pobres; entretanto, com o fim do regime das sesmarias, que ocorreu a partir do fim do período colonial, este sistema passou a abranger grandes áreas de terra.
Prado Júnior (1987) observa que o acentuado grau de concentração fundiária no Brasil resulta da natureza da economia constituída com a colonização e ocupação progressiva do território, baseada na grande propriedade e no estabelecimento de atividades mercantis. A colônia deveria cumprir o papel de fornecer em larga escala produtos primários aos mercados europeus.Em INCRA (1987) é assinalado que não existe um levantamento completo das doações de terras ocorridas no período das sesmarias no Brasil. Para o Estado da Bahia, é mencionada nesta publicação, como a mais importante doação, a concedida ao armador-mor D. Álvaro da Costa, denominada de capitania de Peroaçu, envolvendo todo o território entre as barras do Paraguaçu e o Jaguaribe. É citada ainda como importante, a doação da Ilha de Itaparica, ao Conde de Castanheira. Também é observado que a pecuária acentuou a tendência à formação de imensas propriedades e a sua concentração nas mãos de poucas pessoas; com o extenso sertão baiano, nos séculos XVI e XVII, estando sob o domínio de apenas duas famílias, a Casa da Torre e os Guedes de Brito.
A agricultura de subsistência enfrentou muitas dificuldades no processo de colonização e ocupação do território brasileiro, mas se tornou, com o decorrer dos séculos, em importante atividade para parcela significativa da população rural. A agricultura de subsistência desenvolveu-se nas grandes áreas das monoculturas e da pecuária extensiva, e também em unidades pequenas, em que o proprietário ou o ocupante trabalhavam diretamente a terra, normalmente em áreas de qualidade inferior e distante dos centros urbanos.Sodero (1982) observa que o Estatuto da Terra, e o Direito Agrário brasileiro, fundamentam-se na doutrina da função social da propriedade, segundo a qual toda a riqueza produtiva tem uma finalidade social e econômica, e aquele que a detém deve fazê-la frutificar, em benefício próprio e da comunidade em que vive. A terra rural, portanto, não é um direito individualista, devendo gerar produtos agropecuários, agro-industriais e empregos, preservando o equilíbrio ecológico.Esta doutrina, anteriormente um princípio, não é recente no mundo, tendo sido exposto inicialmente, de forma simples, na antigüidade grega por Aristóteles, e já no século XIII estas idéias iniciais foram cristianizadas por Santo Tomás de Aquino, com a afirmação de que "cada coisa alcança sua colocação ótima, quando é ordenada para seu próprio fim''. Entretanto, estes fundamentos foram pouco usados no decorrer dos séculos anteriores ao atual, apesar de serem até lembrados em algumas ocasiões, como por exemplo na concessão das sesmarias no Brasil, em que fora estabelecido que se destinassem áreas de terras que um homem pudesse explorar com os recursos disponíveis, e determinado um tempo para que isto efetivamente ocorresse, caso contrário a doação seria cancelada; observa-se aí a busca do cumprimento da função social da propriedade, que infelizmente não chegou a existir na acepção da expressão.Na Constituição brasileira de 1934 é introduzida a doutrina da função social da propriedade, um pouco tardiamente pois outras cartas magnas da América Latina já a haviam adotada desde 1919.O Estatuto da Terra, Lei n° 4.504, de 30 de novembro de 1964, apresenta os fundamentos da área agrária no Brasil. Vários países da América Latina haviam se comprometido na Conferência de Punta del Este, em 1960, a realizar a Reforma Agrária, entre eles o Brasil. Havia no País uma mobilização intensa de trabalhadores rurais reivindicando a realização da Reforma Agrária. O Governo do Marechal Castelo Branco criou um grupo de trabalho em 1964, que elaborou o Estatuto da Terra, que não se limitou à Reforma Agrária, abrangendo a área de desenvolvimento rural. Esperava-se ações significativas para resolver o problema da desigualdade da distribuição das terras, mas as ações voltaram-se para as áreas cadastral, tributária e de colonização, e de modernização da agropecuária, esta ocorrendo nas grandes e médias propriedades.Sobre a doutrina da função social da propriedade, o Estatuto da Terra estabelece no seu artigo segundo que:A propriedade da terra desempenha integralmente a sua função social quando, simultaneamente:a) favorece o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores que nela labutam, assim como de suas famílias;b) mantém níveis satisfatórios de produtividade;c) assegura a conservação dos recursos naturais;d) observa as disposições legais que regulam as justas relações de trabalho entre os que a possuem e a cultivam.Verifica-se que o cumprimento da função social presente no Estatuto da Terra, e nas demais legislações da área agrária, abrange aspectos da produção da atividade, da conservação e preservação do meio ambiente, e das relações de trabalho e de convivência entre as pessoas no imóvel rural.A Constituição brasileira de 1988 dedica o Capítulo III, do Título VII, à Política Agrícola e Fundiária e à Reforma Agrária. Entretanto, as ações na área agrária tiveram dificuldades de implementação, só reduzidas com a aprovação da Lei n 8.629, de 25 de fevereiro de 1993, que regulamentou disposições sobre a Reforma Agrária contidas neste Capítulo; e as aprovações que se seguiram de outras legislações.No início da década de oitenta havia uma mobilização de trabalhadores rurais no Brasil, reivindicando a realização da Reforma Agrária; a luta dos trabalhadores rurais nesta época contribuiu para a formulação do I Plano Nacional de Reforma Agrária PNRA, aprovado pelo Governo Federal em outubro de 1985. Entretanto as ações de Reforma Agrária com o IPNRA foram pequenas. Apenas a partir de 1995 é que se inicia no Brasil um programa de distribuição de terras que pode ser considerado, ao mesmo tempo, significativo, relativamente ao que foi feito historicamente, mas ainda pequeno, considerando a dimensão do problema agrário do País. Deve-se ressaltar que o conceito Reforma Agrária abrange um conjunto de medidas, incluindo o acesso dos trabalhadores rurais à terra, e outras que permitam o desenvolvimento local e regional.Durante o processo de colonização e ocupação do território brasileiro não houve mecanismos para impedir a concentração de terras, nem o País realizou a Reforma Agrária para corrigir as distorções formadas nesta área. Com o argumento da superioridade tecnológica da grande produção capitalista e da sua capacidade de atender eficientemente a toda demanda de alimentos e matérias primas agrícolas, questiona-se nas discussões atuais que o Brasil teria perdido a oportunidade histórica de realizar a Reforma Agrária. Entretanto, o País apresenta o recurso terra em abundância, cujo acesso deve ser democratizado, resolvendo um processo histórico de concentração. A grande atividade agropecuária, com o uso de tecnologia avançada, não é a única via a ser percorrida, inclusive porque os aspectos de viabilidade econômica, sustentabilidade ambiental e impacto social, devem ser considerados conjuntamente, não se enfatizando alguns aspectos e desconsiderando outros. A pequena produção deve ser apoiada, com o agricultor utilizando tecnologias apropriadas, e passando por um processo de crescimento técnico, econômico e social.O Brasil apresenta uma distribuição desigual do recurso terra, fato evidenciado em pesquisas realizadas sobre o tema. Tal questão não é recente, e resulta do processo de colonização e ocupação do território, tendo sido analisado neste artigo. O programa de Reforma Agrária em execução no Brasil tem permitido para muitos trabalhadores rurais o acesso à terra. Possibilitar aos assentamentos de Reforma Agrária criados, a viabilidade econômica, social e ambiental, é fundamental, atingindo com isto os objetivos da Reforma Agrária, e impedindo que ocorram processos de reconcentração no espaço agrário do País.
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O espaço Industrial brasileiro
O espaço industrial brasileiroCONCENTRAÇÃO E DESCONCENTRAÇÃO INDUSTRIAL Os processos de industrialização promovem, sempre, a concentração espacial da riqueza e dos recursos financeiros e produtivos. Essa tendência de concentração espacial acompanhou a industrialização brasileira, desde o início do século XX. Em escala nacional, o seu resultado foi a configuração, no Sudeste, de uma região industrial central, dinâmica e integrada. O núcleo dessa região corresponde ao Estado de São Paulo. Além da dinâmica da economia de mercado, a geografia industrial depende das estratégias do Estado. Entre as décadas de 1940 e 1960, a política estatal de desenvolvimento da grande siderurgia abriu uma nova etapa da industrialização brasileira, reforçando a tendência de concentração espacial da indústria no Sudeste. A grande siderurgia brasileira nasceu a partir de duas empresas estatais: a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). A segunda encarregou-se da extração, do transporte ferroviário e naval e da comercialização dos minérios do Quadrilátero Ferrífero, antes de expandir as suas atividades para inúmeras outras jazidas do País. O Estado de São Paulo, núcleo industrial mais dinâmico do Centro-Sul, não está em declínio industrial. As fábricas baseadas no uso intensivo de mão-de-obra são repelidas para outras localizações, mas os principais investimentos em indústrias de alta tecnologia continuam a ser atraídos por São Paulo. A redução da participação do Estado no emprego não é acompanhada por uma diminuição tão acentuada no valor da produção industrial. A SUDENE E A INDUSTRIALIZAÇÃO DO NORDESTE
A industrialização moderna do Nordeste associou-se a uma fase do modelo de substituição de importações marcada pela importância das políticas de desenvolvimento regional do Estado. Essas políticas conduziram a processos de desconcentração da indústria, em escala nacional, e de concentração industrial, em escala regional. A criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), em 1960, foi o ponto de partida de um projeto de desconcentração industrial baseado no planejamento estatal. Por meio de um vasto programa de incentivos fiscais, o Estado conseguiu direcionar investimentos privados do Centro-Sul para o Nordeste. A implantação de usinas hidrelétricas de porte no Rio São Francisco e a presença de mão-de-obra abundante e barata funcionaram como incentivos suplementares.Na Bahia, essa estratégia conduziu à criação do pólo petroquímico de Camaçari e do distrito industrial de Aratu, ambos na região metropolitana de Salvador, O pólo de Camaçari, estabelecido na década de 1970, gira em tomo da Refinaria Landulfo Alves, da Petrobras. O parque industrial químico representou alteração estrutural na economia baiana, tornando-se logo a principal fonte de receita tributária do Estado. No distrito de Aratu predominam as indústrias de bens de consumo duráveis atraídas pelos incentivos da Sudene. O impulso promovido pela Sudene gerou também pólos de produção de bens intermediários como as indústrias de fertilizantes de Sergipe e o complexo químico Salgema de Alagoas. Os insumos produzidos por esses pólos são, em geral, transformados no Sudeste e, em especial, no Estado de São Paulo.
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Os Circuitos da Produção (2ª A)
Os Circuitos da Produção (2ª A)
Produção do espaço, sistemas técnicos e divisão territorial do trabalho (Resumo)
Como a produção do espaço resulta do trabalho social que se funda no sistema técnico imperante em cada fase da história., o conjunto das tarefas executadas pela sociedade reflete a correlação entre espaço produzido e as técnicas disponíveis em determinada época, também chamada de ciclo. O Brasil nasceu na região do nordeste atual, do litoral (com a cana) ao interior ou o amplo sertão nordestino, com a pecuária. Neste, sucederam do séc. XVII ao XXI vários sistemas técnicos caracterizantes da pecuária, cotonicultura, extrativismo, agroindústria e turismo. Cada um com suas especificidades de trabalho. Tomamos, como referência territorial, uma parte de uma das unidades político-adiministrativas, o estado do Ceará no Nordeste Oriental, cujo trabalho sempre esteve ligado, direta ou indiretamente, à ordem internacional, quer da metrópole (Portugal) quer de outros mercados1.
Palavras-chave: sistemas técnicos, pecuária, atividades extrativas, agro-indústria e turismo.
O espaço, como produto do trabalho social, estabelece a condição de continuidade da sociedade, pois cada nova geração sobrevive utilizando-se dos objetos do passado, superpondo-lhes ou acrescentando-lhes outras criações. O geógrafo Allen Scott (1988) diz que "sob as pressões da acumulação, o mundo social está continuamente sendo transformado e retransformado". Com o tempo, o espaço se complexifica e, com as novas condições de comunicabilidade entre os grupos sociais, o espaço ultrapassa o local, tornando-se universal.
As técnicas de uma época estão no espaço produzido. O tempo está, assim, no espaço. Neste, o tempo se denuncia pela presença de diferentes modos de produção. Daí Santos (1980, p.163) dizer que "cada vez que o uso social do tempo muda, a organização do espaço muda igualmente. De um estágio da produção a um outro, de um comando do tempo a um outro, de uma organização do espaço a uma outra, o homem está cada dia e permanentemente escrevendo sua História, que é ao mesmo tempo a história do trabalho produtivo e a história do espaço."
No capitalismo, essas exigências de fazer e refazer formas assumem um caráter cíclico. Harvey (citado por Soja, 1993) sintetizou esse caráter do sistema: "as contradições internas do capitalismo expressam-se através da formação e re-formação irrequietas das paisagens geográficas. É de acordo com essa música que a geografia histórica do capitalismo tem que dançar, ininterruptamente"
Essa afirmação de David Harvey nos leva ao tema dos ciclos, debatidos e teorizados por pensadores de diferentes posturas ideológicas 2, como a teoria dos ciclos longos ou das ondas de Kondratieff.
Nesse corpo teórico, a análise ultrapassa os limites da economia, porquanto vê o sistema em sua totalidade, incluindo "componentes tecnológicos e sociais em interação com o subsistema econômico (Perez) ou, como nos diz o economista brasileiro Ignácio Rangel: "os ciclos econômicos não são apenas fatos econômicos. São fatos sociais, no mais alto sentido dessa expressão" (Folha de São Paulo, 04/08/88). Se são fatos sociais, exprimem-se nas feições da "segunda natureza".
Esses ciclos estão relacionados com as mudanças tecno-econômicas e sócio-institucionais. À medida que elas apresentam uma sintonia há uma tendência de refazer-se da crise e o sistema toma impulso, fase em que se propõe chamar de fase "A". Quando o sistema capitalismo entra em crise, com o desajuste dos dois subsistemas (tecno-econômico e sócio-institucional), entra na depressão ou fase "B".
Desde o século XVIII que, com o controle e a condensação do conhecimento tecnológico transformado em técnica, o capitalismo reedifica-se e solidifica-se, embora dentro das contradições que lhe são inerentes. Os grandes períodos, grandes ciclos ou ondas longas, de duração entre 50 e 60 anos, são marcados por determinados conjuntos de descobertas, de inovações conjugadas que estabelecem uma nova forma de produção e de consumo, possibilitando uma outra dinâmica à vida global da sociedade, afeiçoando-a a um outro paradigma. Dessa maneira, mudam-se as funções, ressurgem formas novas para melhor atender a reanimação dos fluxos de que resulta a produção de um novo espaço, o espaço da modernidade de então. É porisso que podemos falar do espaço de uma determinada época, de novas funções das formas ressurgentes, de "rugosidades"3, de reestruturação do sistema da renovação do espaço geográfico e de inovação da modalidades e das formas de relações de trabalho.
Na compreensão do economista europeu Joseph Schumpeter (1883-1950), essa fluidez do sistema em, periodicamente, apresentar rupturas e posterior ajustamento deve-se à sua dinâmica basear-se na vaga contínua de destruição criativa. Essa idéia se fundamenta na ação dos empresários inovadores que, diante da crise, assimilam a nova ordem técnica e adotam métodos capazes de produzir a custo menor. A base do contexto capitalista está na "abertura de novos mercados, externos ou internos, e o progresso de organização desde o artesanato até a indústria que, incessantemente, revoluciona a estrutura econômica, destruindo incessantemente a antiga e incessantemente criando uma nova. Este processo de destruição criativa é o fato essencial do capitalismo" (Schumpeter,1946, p.103-4).
Para Soja (1993), "a reestruturação, em seu sentido mais amplo, transmite a noção de uma ruptura nas tendências seculares, e de uma mudança em direção a uma ordem e uma configuração significativamente diferentes da vida social, econômica e política. Evoca, pois, uma combinação seqüencial de desmoronamento e reconstrução, de desconstrução e tentativa de reconstituição..." (p. 193). O espaço é a expressão mais significante dessa mudança. Nesse aspecto, a cidade é o lugar de maior demonstração do espaço reconstruído e criador de extensores capazes de vincular diferentes pontos, proporcionando a abertura de novos mercados que oferecem meios para a nova ordem que se constrói. Dela partem as ordens, as informações e as comunicações que definem as modalidades de uso dos territórios, da organização da produção e de forma de existência do homem.
Embora esse norteamento teórico esteja mais intimamente relacionado ao conjunto global do sistema capitalista, essa reflexão nos leva a compreender porque subespaços também passam por ciclos. Isso ocorre, especialmente, quando notamos a inserção econômica e produtiva desses subespaços. Isto se faz quando esses pedaços de espaço recebem ordens externas, como sempre tem sido o caso do nordeste brasileiro.
Produção do espaço, sistemas técnicos e divisão territorial do trabalho (Resumo)
Como a produção do espaço resulta do trabalho social que se funda no sistema técnico imperante em cada fase da história., o conjunto das tarefas executadas pela sociedade reflete a correlação entre espaço produzido e as técnicas disponíveis em determinada época, também chamada de ciclo. O Brasil nasceu na região do nordeste atual, do litoral (com a cana) ao interior ou o amplo sertão nordestino, com a pecuária. Neste, sucederam do séc. XVII ao XXI vários sistemas técnicos caracterizantes da pecuária, cotonicultura, extrativismo, agroindústria e turismo. Cada um com suas especificidades de trabalho. Tomamos, como referência territorial, uma parte de uma das unidades político-adiministrativas, o estado do Ceará no Nordeste Oriental, cujo trabalho sempre esteve ligado, direta ou indiretamente, à ordem internacional, quer da metrópole (Portugal) quer de outros mercados1.
Palavras-chave: sistemas técnicos, pecuária, atividades extrativas, agro-indústria e turismo.
O espaço, como produto do trabalho social, estabelece a condição de continuidade da sociedade, pois cada nova geração sobrevive utilizando-se dos objetos do passado, superpondo-lhes ou acrescentando-lhes outras criações. O geógrafo Allen Scott (1988) diz que "sob as pressões da acumulação, o mundo social está continuamente sendo transformado e retransformado". Com o tempo, o espaço se complexifica e, com as novas condições de comunicabilidade entre os grupos sociais, o espaço ultrapassa o local, tornando-se universal.
As técnicas de uma época estão no espaço produzido. O tempo está, assim, no espaço. Neste, o tempo se denuncia pela presença de diferentes modos de produção. Daí Santos (1980, p.163) dizer que "cada vez que o uso social do tempo muda, a organização do espaço muda igualmente. De um estágio da produção a um outro, de um comando do tempo a um outro, de uma organização do espaço a uma outra, o homem está cada dia e permanentemente escrevendo sua História, que é ao mesmo tempo a história do trabalho produtivo e a história do espaço."
No capitalismo, essas exigências de fazer e refazer formas assumem um caráter cíclico. Harvey (citado por Soja, 1993) sintetizou esse caráter do sistema: "as contradições internas do capitalismo expressam-se através da formação e re-formação irrequietas das paisagens geográficas. É de acordo com essa música que a geografia histórica do capitalismo tem que dançar, ininterruptamente"
Essa afirmação de David Harvey nos leva ao tema dos ciclos, debatidos e teorizados por pensadores de diferentes posturas ideológicas 2, como a teoria dos ciclos longos ou das ondas de Kondratieff.
Nesse corpo teórico, a análise ultrapassa os limites da economia, porquanto vê o sistema em sua totalidade, incluindo "componentes tecnológicos e sociais em interação com o subsistema econômico (Perez) ou, como nos diz o economista brasileiro Ignácio Rangel: "os ciclos econômicos não são apenas fatos econômicos. São fatos sociais, no mais alto sentido dessa expressão" (Folha de São Paulo, 04/08/88). Se são fatos sociais, exprimem-se nas feições da "segunda natureza".
Esses ciclos estão relacionados com as mudanças tecno-econômicas e sócio-institucionais. À medida que elas apresentam uma sintonia há uma tendência de refazer-se da crise e o sistema toma impulso, fase em que se propõe chamar de fase "A". Quando o sistema capitalismo entra em crise, com o desajuste dos dois subsistemas (tecno-econômico e sócio-institucional), entra na depressão ou fase "B".
Desde o século XVIII que, com o controle e a condensação do conhecimento tecnológico transformado em técnica, o capitalismo reedifica-se e solidifica-se, embora dentro das contradições que lhe são inerentes. Os grandes períodos, grandes ciclos ou ondas longas, de duração entre 50 e 60 anos, são marcados por determinados conjuntos de descobertas, de inovações conjugadas que estabelecem uma nova forma de produção e de consumo, possibilitando uma outra dinâmica à vida global da sociedade, afeiçoando-a a um outro paradigma. Dessa maneira, mudam-se as funções, ressurgem formas novas para melhor atender a reanimação dos fluxos de que resulta a produção de um novo espaço, o espaço da modernidade de então. É porisso que podemos falar do espaço de uma determinada época, de novas funções das formas ressurgentes, de "rugosidades"3, de reestruturação do sistema da renovação do espaço geográfico e de inovação da modalidades e das formas de relações de trabalho.
Na compreensão do economista europeu Joseph Schumpeter (1883-1950), essa fluidez do sistema em, periodicamente, apresentar rupturas e posterior ajustamento deve-se à sua dinâmica basear-se na vaga contínua de destruição criativa. Essa idéia se fundamenta na ação dos empresários inovadores que, diante da crise, assimilam a nova ordem técnica e adotam métodos capazes de produzir a custo menor. A base do contexto capitalista está na "abertura de novos mercados, externos ou internos, e o progresso de organização desde o artesanato até a indústria que, incessantemente, revoluciona a estrutura econômica, destruindo incessantemente a antiga e incessantemente criando uma nova. Este processo de destruição criativa é o fato essencial do capitalismo" (Schumpeter,1946, p.103-4).
Para Soja (1993), "a reestruturação, em seu sentido mais amplo, transmite a noção de uma ruptura nas tendências seculares, e de uma mudança em direção a uma ordem e uma configuração significativamente diferentes da vida social, econômica e política. Evoca, pois, uma combinação seqüencial de desmoronamento e reconstrução, de desconstrução e tentativa de reconstituição..." (p. 193). O espaço é a expressão mais significante dessa mudança. Nesse aspecto, a cidade é o lugar de maior demonstração do espaço reconstruído e criador de extensores capazes de vincular diferentes pontos, proporcionando a abertura de novos mercados que oferecem meios para a nova ordem que se constrói. Dela partem as ordens, as informações e as comunicações que definem as modalidades de uso dos territórios, da organização da produção e de forma de existência do homem.
Embora esse norteamento teórico esteja mais intimamente relacionado ao conjunto global do sistema capitalista, essa reflexão nos leva a compreender porque subespaços também passam por ciclos. Isso ocorre, especialmente, quando notamos a inserção econômica e produtiva desses subespaços. Isto se faz quando esses pedaços de espaço recebem ordens externas, como sempre tem sido o caso do nordeste brasileiro.
Postado por
PROFESSOR MARIO
às
15:33
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